Pais e adolescentes problemáticos

problematic adol/fatherUma grande maioria dos adolescentes que vemos nas consultas de Psiquiatria e Psicologia, sobretudo com problemas de comportamentos (faltas às aulas, agressividade, falta de respeito por regras, consumos de drogas e álcool, fugas de casa, comportamentos auto-lesivos, etc.), vêm acompanhados de pais desesperados, preocupados, “no limite”, que de forma quase constante nos dizem: “não sabemos mais o que fazer com ele/a!

Quando escutamos atentamente as famílias compreendemos que o problema vêm de há muito tempo, que se insinuou de forma quase invisível até à altura em que os filhos entram na fase da adolescência. Ausência de padrões consistentes de educação, de negociação de regrascomunicações altamente perturbadas,  dificuldades de adaptação dos pais ao crescimento do seu filho (que deixou de ser uma criança), etc.

Os pais procuram “soluções milagrosas“: “um medicamento para o controlar”; “uma terapia”.

Estes “milagres” não acontecem!

Dar a volta a estes problemas implica que toda a família se envolva, que mude os seus padrões de relacionamento e de comunicação. O adolescente, na maioria das vezes é isto que quer e o “comportamento perturbado” é a forma que arranjou para comunicar isto à família.

Quando o adolescente, a família e os terapeutas compreendem isto e quando se motivam para avançar no sentido da mudança necessária, aí sim o “milagre acontece”!

O Professor Daniel Sampaio escreveu um livro que recomendamos muito nestes casos: “Lavrar o Mar“. Esta obra pode ser um ponto de partida para os pais que se questionam sobre estes assuntos e a sua leitura é algo que recomendamos!!

DG 2013

“Cicatrizes de uma dor interior insuportável”

Transcrevemos de seguida o texto da autoria de Maria João Lopes, publicado no Jornal Público de 11.12.2013.

Trata-se de um artigo muito bem feito, com o qual tive o gosto de colaborar numa fase preparatória e onde memórias de situações vividas – nomeadamente a do Rui que tem sido um dos meus doentes mais desafiantes – me motiva a continuar a fazer tudo o possível para ajudar estes jovens e suas famílias.

95125“Cicatrizes de uma dor interior insuportável”

A maioria fá-lo em segredo. Nem sempre é, por isso, fácil de detectar, mas é algo que se supera. Mais do que as circunstâncias e contrariedades da vida, o que a automutilação na adolescência põe a descoberto é a falta de recursos para lidar com essas circunstâncias. É sentir-se ultrapassado por elas. Histórias de jovens que se magoam no corpo, porque carregam dentro de si um grande sofrimento interior.

A primeira vez que se magoou de propósito, Rui, de 21 anos, estava com uma “neura” tão grande, tão furioso com as más notas, que deu um murro na parede deslocou um dedo. O que poderia, porém, ter sido um episódio pontual de raiva, não foi. Depois dos murros, vieram os arranhões com tesouras, mais tarde as lâminas. “Aquilo evoluiu de uma forma que, quando dei por mim, já não conseguia parar. Não podia passar um dia sem me cortar, não conseguia. É um vício. A partir daí, foi uma espiral”, conta.

Ana, de 19 anos, começou a ter comportamentos de auto-agressão muito cedo. Aos nove, já se arranhava com ganchos, arrancava cabelos. “Era uma forma de libertar a minha raiva”, diz. Acabou por chegar às lâminas, às tesouras, aos x-actos. Era invadida por pensamentos de queimar beatas no corpo: “Não sei explicar porquê … Acho que é mesmo o nojo de mim, do meu corpo, passa muito por não gostar do meu corpo. O meu cão tem uma trela de estrangulamento e pensei várias vezes em estrangular as pernas”.

Maria, de 28 anos, que está, como Ana, a fazer um tratamento no centro Villa Ramadas, tem no braço esquerdo uma cicatriz que se destaca – cortava-se muitas vezes na mesma ferida. Já não lhe doía. “Sentia-me aliviada e, quando tinha dores de alma, precisava de ver o sangue. Sentia uma tranquilidade enorme quando via o sangue”.

Tal como Ana e Maria, também Leonor, de 33 anos, passou por aquele centro. Duas vezes. Numa delas, como não tinha à disposição nenhum objecto cortante, batia com a cabeça e os braços contra o mármore do lavatório, na casa de banho. Andava cheia de nódoas negras na cara.

O último relatório Health Behaviour in School-aged Children, promovido pela Organização Mundial de Saúde e realizado em Portugal por uma equipa coordenada por Margarida Gaspar de Matos, refere que 15,6% dos jovens dos 8 e 10 anos já se magoaram de propósito.

A partir de uma amostra de 5050 jovens com uma média de 14 anos, os investigadores verificaram que 15,6% já se tinham agredido pelo menos uma vez no ano anterior. O relatório conclui, “sem alarmismos”, que é preciso estudar o fenómeno e “tentar encontrar, junto dos jovens, alternativas que possibilitem a auto-regulação emocional sem recurso à violência autodirigida”. Mostrar que há outras formas de lidar com a dor interior e com as tensões: “Fazer mal a si é uma estratégia de resolver problemas que efectivamente não resolve nada e só adia o mal-estar, aumentando-o“, alerta Margarida Gaspar de Matos.

self_harmRui tinha 16 anos quando os pais descobriram que se automutilava. Numa manhã, o pai entrou no quarto e o filho estava a dormir com um braço de fora: a manga do pijama descuidadamente subida deixava ver uma série de cortes. Uma das feridas tinha rebentado, havia sangue na cama. A mãe ficou em choque, o pai apático. “Ficaram de rastos, foi uma altura bastante dolorosa”, recorda Rui. Mas acabaram por se sentar com o filho a conversar, sem acusações nem dramas: “Queríamos saber como podíamos ajudar”, diz a mãe, de 49 anos. Conseguiram convencê-lo a procurar ajuda especializada. Mas, depois de várias idas a diferentes psicólogos, a espiral continuava, e piorava. Até que finalmente, através do Hospital de Santa Maria, em Lisboa, descobriram um psiquiatra com quem o jovem conseguiu estabelecer uma relação empática. Hoje sente-se melhor e já tem muito mais controlo sobre o impulso de se cortar. Rui tem amigos, sai à noite, é filho único de pais que se dão bem e não teve no seu percurso de vida qualquer acontecimento particularmente traumático. Foi só aos 14 anos, quando teve as primeiras negativas na escola, que começou a sentir dificuldade em lidar com as adversidades. Apesar de outros obstáculos se terem seguido, Rui recorda as más notas como o primeiro motivo de intensa frustração. Sentia que desapontava o pai “Sempre gostei muito da minha família, nunca tive problemas. Mas via o meu pai como um ídolo e, quando ele, como é normal, me deu na cabeça por ter más notas, comecei a sentir-me em baixo. Gostava muilo de agradar ao meu pai”, recorda. Começou a não controlar a raiva. Mais tarde, teve mesmo alguns ataques de pânico, não queria ir à escola nem ver ninguém.

A mãe de Ana, de 43 anos, também se recorda bem das crises da filha, que acabou por ir para tratamento não só devido à automutilação, mas também por distúrbios alimentares (os dois comportamentos podem surgir associados). Uma vez, e antes de a mãe tirar as chaves todas de casa, trancou-se no quarto e não abria a porta. Lá dentro, ouvia choro. Inicialmente, a mãe deixou-a estar. Pensou que chorar também fazia bem, às vezes. Mas começou a inquietar-se com um choro “cada vez mais aflitivo”, depois cada vez mais fraco. Como Ana não abria a porta, a mãe foi pelo terraço, à volta, e conseguiu entrar no quarto. “Ela está caída no chão, toda vomitada, toda cortada, com sangue a sair pelo nariz, a sair baba por tudo quanto sítio, a sangrar dos braços. Aí senti-me sem forças, impotente.” Foram milésimas de segundos até voltar a si, e limpá-la, tratar-lhe das feridas. Sempre foi uma incógnita o objecto que a filha usaria para se cortar. A mãe escondeu tudo o que pudesse representar perigo e, mesmo assim, Ana continuava a cortar-se. A mãe até lhe tirou do quarto uma caixinha de sapatos onde Ana guardava os objectos de arranjar as unhas. Tirou-lhe os ganchos. “Foi mais uma luta, não sabia com que era”, diz. Quando Ana foi para o Villa Ramadas, a mãe virou o quarto do avesso. Tirou folha por folha dos cadernos da escola, vasculhou entre os sapatos, dentro dos bonecos onde Ana guardava cartas antigas de namorados, desmanchou-os todos, levantou o colchão. “Não descobri”. Foi Ana quem, já no centro, e antes de uma ida a casa, telefonou à mãe a fazer um pedido. Disse-lhe para ir à coluna do quarto tirar a lâmina que lá estava escondida. A mãe ficou atónita: “Coluna?” E foi disparada desmanchar as colunas do computador: “Tudo, peça por peça. E nada, não encontrei nada”. Desesperada, pediu ajuda à filha mais nova: “Filha, ajuda a mãe a pensar. A lâmina está escondida na coluna, o que é uma coluna?”. A lâmina estava, afinal, dentro da saída de som, encaixada na parede, que existe no quarto de Ana. Trata-se do sistema de som que percorre toda a casa.

Violência autodirigida, automutilação, auto-agressão, o conceito pode variar de acordo com os autores que o estudam. Alguns preferem o termo auto-agressão à designação automutilação, por entenderem que esta se refere à mutilação de um membro em vez de cortes, queimaduras e outras formas de ferir a superfície da pele. “Não existe definição consensual“, diz o psiquiatra Diogo Frasquilho Guerreiro, que está a fazer um doutoramento sobre o tema. Pode incluir jovens que se cortam ou se queimam deliberadamente, saltam de alturas, batem a si próprios,ingerem objectos, muito comummente cortantes, ou medicamentos, álcool, e drogas em excesso, sempre com o intuito de se magoarem. De uma forma geral, o mais frequente é a destruição deliberada da superfície corporal, através de cortes, queimaduras ou beliscões, por exemplo.

Também Diogo Frasquilho Guerreiro fez, nos últimos dois anos, em conjunto com Daniel Sampaio e Maria Luísa Figueira, do departamento de Psiquiatria e Saúde Mental da Faculdade de Medicina de Lisboa, um estudo sobre comportamentos autolesivos em jovens entre os 12 e os 20 anos da Grande Lisboa. Os resultados, ainda preliminares, indicam que 7% dos jovens já realizaram pelo menos uma vez comportamentos auto lesivos e 10% já pensaram nisso. Merece, porém, uma atenção distinta quem o realiza não como uma experiência isolada, mas repetidamente: 3,5%. Neste estudo, as sobredosagens foram, depois dos cortes e das queimaduras, as formas de autolesão mais comuns. Verificou-se ser um acto impulsivo, que quatro em cada cinco jovens o fazem em segredo, e só um em cada cinco pede ajuda. Apesar de, na maioria das vezes, os jovens não terem como intenção o suicídio, dois em cada cinco referem ter tido períodos em que queriam mesmo morrer.

Foi o caso de Ana, de Leonor, de Maria e de Rui. Todos eles tiveram, em algum momento, vontade de desistir da vida. Apesar, porém, de estar associado a um grande sofrimento interior, o que define este comportamento, segundo Margarida Gaspar de Matos, é o querer magoar-se a si próprio de propósito, com o objectivo de se acalmar e gerir emoções, e não uma ideação suicida. Tal não significa, contudo, que estes jovens não tenham maior propensão para cometer suicídio, para além de estarem sujeitos ao risco de um desfecho trágico por acidentalmente cortarem uma veia. “A presença deste tipo de comportamentos é um factor de risco comprovado para suicídio completo. É um sinal. É vulgar a ideia de que estes comportamentos são só para chamar a atenção!... Mesmo nos casos em que é assim, estes jovens têm risco aumentado de suicídio“, frisa Diogo Frasquilho Guerreiro.

Self_Harm

Antes de ir para o centro, Ana já “não tinha expressão no rosto, não tinha vida no olhar”, conta a mãe. Começou a ir a pedopsiquiatras ainda menina, e, aos nove anos, já ia para as consultas “sem vontade de viver”. Até aos 15, recupera algum fôlego, mas, com a entrada na adolescência, tudo piora. Vai a psicólogos, pedopsiquiatras, psiquiatras, toma medicação. Cada vez mais medicação. Mas os medicamentos já não resultam e, quando Ana chega aos 18, “tudo explode”. A jovem, que revela ser desde nova muito perfeccionista, começa a recorrer cada vez mais à automutilação. Â semelhança de outros testemunhos, basta qualquer coisa não acontecer como o desejado, “basta um desentendimento com o namorado, para se cortar”, diz a mãe. “Cada vez há mais cortes. Ela deixa de poder ficar sozinha em casa, porque eu tenho medo que lhe aconteça algo. A minha vida era ir buscar a mais pequenina [irmã mais nova de Ana] à escola, e vir a correr com medo daquilo que pudesse encontrar em casa”, acrescenta. Só depois de Ana ter ido para tratamento é que a mãe começou a dormir. Até lá, passava as noites em branco, a fumar, a beber café, a comer na cozinha. Sempre com medo que Ana acordasse e fizesse mal a si própria. Mudou-se para o quarto ao lado. Quando não conseguia aguentar mais e se deitava a descansar, punha o despertador para acordar de hora em hora. Quando ia ao supermercado, conseguia encher um carrinho em cinco minutos. Não se ausentava de casa por muito tempo metendo baixa para tomar conta dela , para estar perto. Não esconde as dificuldades por que passou: “Não há ajudas, apoios para este problema”. Sentiu-se muitas vezes desamparada, nem saber o que fazer: “Várias vezes … Quase todas as vezes.”

Baixar a irritação e a ansiedade, sentir adrenalina, procurar alívio e autopunição são algumas das justificações apontadas pelos jovens, na investigação feita por Margarida Gaspar de Matos.

Diogo Frasquilho Guerreiro encontrou jovens que queriam saber se alguém gostava deles; que desejavam vingar-se ou assustar alguém; que pretendiam chamar alguma atenção; ou que tinham vontade de morrer. As razões podem ser múltiplas, “a intenção que conta é querer magoar-se a si próprio”, ressalva o psiquiatra. Apesar de cada caso ser um caso, o que os especialistas percebem é que quase todos estes adolescentes têm não só dificuldade na expressão das emoções, como recursos mais fracos para lidar com o stress.

A primeira vez que Leonor, veterinária de 33 anos, se recorda de se ter cortado foi aos 16 anos. Não se lembra do que pensou na altura, de onde lhe veio aquele impulso. O que sabe é começou com uma “birra” com o namorado que tinha então. É quase sempre assim, ou foi quase sempre assim, porque entretanto Leonor já fez dois tratamentos e hoje sente-se “mais positiva”. “Sei que tivemos uma guerra qualquer. E aquilo foi uma chamada de atenção. Não o fiz à frente dele, mas de alguma forma, sim, queria que ele visse e consegui isso, que se preocupasse”. Os cortes aconteciam sempre que havia um “desacordo qualquer” que deixava Leonor muito frustrada. “Normalmente, há uma frustração e eu não consigo resolver determinado conflito.” É-lhe difícil, por exemplo, pedir desculpa e andar para a frente, “deixar aquilo por ali”. “E se a outra pessoa passa a ter pena de mim, a preocupar-se comigo, quase que quebra ali imediatamente a discussão, aquele mau ambiente”, diz. Dessa vez, estava em casa do namorado. “Não sei por que tivemos a discussão. Sei que se prolongou até altas horas da noite. E, a certa altura, não conseguia sair dali.” Foi para a casa de banho e cortou-se com uma tesoura pequenina no braço. “Ao longo destes anos todos, esteve sempre muito ligado às relações. As frustrações associadas a relações que tenho”. Leonor acredita que o distúrbio alimentar que tem – é anoréctica e bulímica em recuperação – e a automutilação estão relacionados: ”Sei que é uma grande falta de aceitação que tenho para comigo. É assim há muitos anos, auto-estima muito baixa.” Só da segunda vez é levou o tratamento a sério, e agora sente-se melhor. Não quer pensar mais em automutilação. Procura outras estratégias para reagir à frustração, como pegar no telefone e falar com alguém, por exemplo.  As cicatrizes de Leonor não se notam muito. Pelo menos, as que tem nos braços. Porque também as tem na barriga, nas pernas, nas nádegas. Pesa cerca de 43 quilos, mas já pesou menos – 37, quando tinha 25 anos.

tumblr_mhihyq3YsM1rxb6xoo1_500Já as cicatrizes de Rui notam-se bem, algumas são tão grandes e profundas que tiveram de levar pontos. Tem o corpo todo assim: as pernas, o peito, a barriga. Cortava-se no sótão, onde tem o computador e as suas tralhas, e no quarto. Usava panos velhos para estancar o sangue, limpava, escondia tudo. Durante dois anos, usava t-shirts de manga comprida, os pais nem sonhavam: “Não andávamos atrás dele para ver como ele se estava a lavar”, justifica a mãe. Quando descobriu, a mãe de Rui, à semelhança da de Ana, também passou a esconder os objectos cortantes que havia em casa. Fazia vistorias ao corpo, às gavetas do filho, mas Rui arranjava sempre maneira, nem que fosse partindo o plástico de uma esferográfica. Na Internet, encontrou avisos de que acabaria por ir parar ao hospital: “ Pensamos que isso não vai acontecer, mas acontece”. Rui esteve lá, mais que uma vez, por se ter cortado demasiado, por duas tentativas de suicídio. Acerta altura, já não era só a escola, eram as decepções com amigos, os desgostos de amor … Era tudo, uma bola de neve. Chegou a estar internado. Quando estava mais nervoso, os cortes eram piores, mais fundos. Fazia-o, porque “a dor emocional” era “tanta” que só com uma dor física a conseguia iludir: “A vida tem o lado bom e o lado mau. Eu lidava pessimamente com o mau”, admite. Recorda-se de ficar num estado de “relaxamento total absoluto” quando se cortava: “Começava por sentir calafrios e, depois, ficava relaxadíssimo. Via o sangue a correr, o corte, a dor … No início do corte, sentia o coração a bater, a bombear, tinha mesmo arritmias esquisitas. Depois, quando parava e ficava a olhar, sentia-me muito aliviado”.

As famílias descobrem quase sempre por acidente e, quase sempre também, “entram em pânico”: “É uma situação de muito stress. Os pais ficam muito angustiados, põem muitas vezes uma pressão desgraçada sobre o adolescente. Mas a mensagem a passar é: resolve-se“, esclarece Diogo Frasquilho Guerreiro.

A automutilação é mais frequente na adolescência uma fase que por si só exige “um esforço gigantesco de adaptação, de procura de identidade”, diz o psiquiatra. O psicólogo Eduardo Sá acrescenta que, nesta etapa da vida, os jovens sentem-se numa “terra de ninguém”: não são crianças, nem adultos. Por ser um altura cheia de “mudanças súbitas” pode levar a “níveis de sofrimento muito grandes, com os quais os pais têm por vezes dificuldade em lidar” “Mas, na automutilação, o nível de sofrimento é mais agudo, são ouriços assustados”, ilustra.

A maioria dos jovens consegue porém, superar o impulso da automutilação, seja porque conhecer alguém que lhes abre uma nova perspectiva, seja porque crescem e aprendem a resolver os conflitos por si. Mas há casos que chegam à idade adulta, passando do corte para a sobredosagem: “Na maioria dos casos, resolve-se, ou espontaneamente ou com ajuda profissional. Numa minoria, os comportamentos podem manter-se na vida adulta, com consequências muito graves, inclusive suicídio”, alerta Diogo Frasquilho Guerreiro, frisando que há situações em que é imprescindível procurar ajuda especializada o mais cedo possível. Essencial parece ser falar, identificar as dificuldades e procurar soluções. Mas há famílias, contam os especialistas, em que a comunicação é praticamente inexistente, e nem sempre é por falta de preocupação ou de afecto. São, por vezes, situações em que nem pais nem adolescentes sabem conversar sobre angústias: “Em alguns casos, ninguém sabe o que se passa com os membros da família. E os jovens devem ser educados a falar sobre as ansiedades e os sentimentos, é meio caminho andado para deixarem estes problemas”, diz Diogo Frasquilho Guerreiro. Em teoria, faz sentido, mas a prática é um exercício bem mais delicado. Os pais de Rui, por exemplo, consideram- se atentos e preocupados, e não demasiado exigentes: “O pai é sério e acha que se tem de estudar e ter um rumo na vida. Tentava incutir isso no filho. Às vezes, dizia-lhe aquelas coisas como ‘não sais daqui enquanto não estudares’, mas tudo sem violência … “, conta a mãe. Quando perceberam o que se estava a passar, a primeira pergunta que fizeram -e fizeram-na também ao psiquiatra – foi: “O que estamos a fazer mal? Fomos nós que falhámos?”. O psiquiatra sossegou-os, Desdramatizou, explicou-lhes que há saída. O pai continua a “martirizar-se um pouco” com o que aconteceu. Apesar de se esforçar por não entrar em conflito com o filho, ainda hoje se angustia por este não ter completado o 11º ano, nem tencionar para já fazê-lo, Rui quer trabalhar. Aflige-o pensar que, um dia, ele e a mulher podem não estar cá para ajudar o filho, seja no que for: “Temos receio que, perante uma frustração, ele se magoe, faça mal a si próprio. Medo do pior. Queremos que ganhe capacidade de pedir ajuda”, diz a mãe.

“Quando dei por mim, já não podia
passar um dia sem me cortar, nao
conseguia. É um vício. A partir daí. foi
uma espiral”
Rui, 21anos

“Fazer mal a si é uma estratégia de
resolver problemas que efectivamente
não resolve nada e só adia o mal-estar,
aumentando-o”
Madalena Gaspar de Matos, Investigadora

wellbethere

A propósito dos mediáticos casos de violência entre adolescentes…

Ultimamente os adolescentes “dos dias de hoje” têm sido vitímas de uma onda de crítica muito “violenta” e mediática. Várias reportagens, crónicas e artigos referem generalizações algo abusivas referindo-se a estes como “pessoas sem valores… violentos… sem educação…”. Nesta sequência os comentadores procuram razões para isso, será um problema da sociedade? Da escola? Das famílias?… Dos políticos? Da globalização?…

Não tenho dúvidas que apenas uma pequena minoria dos adolescentes actuais reflecte aquilo que foi visto nos casos recentes de violência com direito a passagem no “horário nobre” das televisões e comentados nas “primeiras páginas” dos jornais (um grande prémio para estes jovens, na nossa sociedade em que é considerada uma vitória o protagonismo nos meios de comunicação social!).

Felizmente a grande maioria dos adolescentes adapta-se às situações (por vezes até bem difíceis) do seu quotidiano, sem recorrer a métodos como a violência, o consumo de drogas ou outros que tais…

Existe claro uma minoria de jovens que apresentam dificuldades nesta adaptação (tal como existe uma minoria dos adultos) e que por vezes recorrem à violência como forma de lidar com os problemas que têm. Existem também pessoas que terão o famigerado “défice de valores e pouca educação” sem dúvida, tal como uma minoria dos adultos. E também há personalidades caracterizadas por violência e desrespeito pelas regras sociais, as chamadas perturbações de personalidade anti-social, que não são de todo exclusivas da adolescência!

O Homem (a espécie humana, em todas as idades e épocas) é instintivamente violento. Depedendo do seu desenvolvimento, do meio envolvente e das suas experiências, irá controlar mais ou menos bem esse instinto. A adolescência é um período de transformação marcada, em que estes impulsos poderão ser visíveis pois a “estação de controlo cerebral” (cortéx pré-frontal) ainda está em maturação. Uma vez que este controlo interno ainda não existe na totalidade é obviamente importante a ajuda dos adultos quer sejam a família, os professores, os políticos, etc… E ajudar é permiti-los crescer, permitindo que explorem alternativas de acção e resolução dos problemas, mas ao mesmo tempo impor limites!

Deixo aqui uma parte do artigo do Prof. Daniel Sampaio que saiu na revista Pública de 29 de Maio 2011, com o título “Raivas adolescentes”, que apresenta uma reflexão sobre este tema:

A raiva é sempre destruidora se for deixada crescer sem a entendermos. Se a enterrarmos, poderá contribuir para uma depressão. Se a “tratarmos” com álcool ou drogas, procurando que essas substâncias a acalmem, passaremos a ter mais um problema. Se a exteriorizarmos sempre, poderemos transformar-nos em alguém conflituoso e insuportável.

É fundamental conhecer a raiva destes adolescentes agressivos. Muitas vezes viveram com pessoas sem controlo emocional, que veicularam sempre a ideia de que a violência tudo pode resolver. Noutros casos, viveram em famílias “perfeitas”, onde ninguém podia gritar e qualquer manifestação agressiva era associada à loucura: na adolescência, na luta pela autonomia, a raiva finalmente libertada encontra nos mais próximos o alvo preferido. Por vezes, são vinganças face a pais maltratantes na infância (abusadores, por exemplo), que explodem quando o medo físico dos familiares é agora ultrapassado por um corpo juvenil cheio de energia.

Compreender não significa mudar. Feita a história da relação, é crucial intervir. Conhecer a raiva. Compreender que não se fica agressivo para sempre. Perceber que não se pode ficar parado, num ritual de progressiva auto-humilhação. Concluir que intimidar os outros nos pode deixar mais sós.

Abraço

DG 2011

Resultados de Estudo em Adolescentes Portugueses

Foram recentemente disponibilizados pela equipa da Aventura Social, da Faculdade de Motricidade Humana, os resultados de um estudo importante sobre comportamentos dos adolescentes Portugueses.

O Health Behaviour in School-aged Children (HBSC) é um estudo colaborativo da Organização Mundial de Saúde que pretende estudar os estilos de vida e comportamentos dos adolescentes nos vários contextos das suas vidas. Integra 44 países, incluindo Portugal, que aderiu em 1996 e é membro associado desde 1998. O primeiro estudo no País decorreu em 1998, seguindo-se os de 2002, 2006 e 2010.

Este estudo revela uma série de dados interessantes e importantes.

Deixamos o link para o pdf que resume os principais resultados: HBSC Adolescentes 2010-11

Este tipo de estudos são fundamentais para que melhor possamos compreender os adolescentes de hoje. Muitos dos parâmetros estudados estão relacionados com a Saúde Mental e por isso no Psiadolescentes não poderíamos deixar de dar os parabéns à Equipa!!

Um abraço

DG 2011

Novo conteúdo: Perturbações de Comportamento

Está disponível um novo conteúdo acerca das Perturbações de Comportamento na adolescência: a Perturbação da Conduta e a Perturbação de Oposição-Desafio.

Tratam-se de dois problemas frequentes e que causam grandes dificuldades não só para os adolescentes que deles sofrem mas também para quem com eles lida.

Relembramos no entanto que estes são diagnósticos psiquiátricos e que para o correcto diagnóstico é fundamental a observação por um técnico especializado.

Sugerimos a leitura e atenção para estas condições patológicas:  https://psiadolescentes.wordpress.com/perturbacoes-comportamento.

Um abraço

DG 2011

Adolescentes com comportamentos anti-sociais tem cérebros diferentes

Um estudo recente, publicado no American Journal of Psychiatry, mostrou que adolescentes com comportamentos agressivos e anti-sociais,  associados ao diagnóstico de Perturbação de Conduta têm alterações cerebrais que podem ajudar a clarificar o que se passa com eles.

A Perturbação de Conduta é uma doença psiquiátrica caracterizada por níveis acima da normalidade de comportamentos agressivos e anti-sociais (ex: roubar, bater, intimidar, magoar os outros, incumprimento sistemático de regras). É mais comum em rapazes, podendo iniciar-se na infância ou na adolescência, sendo estimado que ocorra em 5 em cada 100 adolescentes. Pessoas com esta perturbação têm maior risco de desenvolver problemas de saúde fisíca e mental, assim como problemas com a justiça.

Estes investigadores estudaram cérebros de adolescentes através de Ressonância Magnética, tendo verificado que a amigdala e a insula (regiões cerebrais ligadas à compreensão das emoções e do sofrimento dos outros) são significativamente menores em adolescentes com perturbação de conduta.

Esta diferença na capacidade cerebral pode ser “causa” ou “consequência” sendo necessário aprofundar mais o assunto. No entanto fica claro que adolescentes com este tipo de Perturbação necessitam de apoio especial, sobretudo no que toca a serem ajudados “a ver o lado do outro”.

DG 2011

Videojogos aumentam a tolerância à violência

Esta notícia chamou a nossa atenção, retirado do Público de 4/4/2011

O contacto com videojogos violentos torna as pessoas mais insensíveis a situações de violência. Mas isso não significa que todas se tornem agressivas, argumenta o investigador americano Bruce D. Bartholow, que deu esta segunda-feira uma conferência onde abordou um tema sempre controverso.

A exposição a imagens violentas não é um fenómeno novo, lembrou Bartholow, durante uma conferência no ISCTE, em Lisboa. O investigador notou que já na antiguidade romana havia espectáculos violentos, mas defendeu que o actual consumo de informação e entretenimento faz com que as pessoas estejam mais frequentemente expostas a este tipo de estímulos.

Em conversa com o PÚBLICO, o académico argumentou que a diferença entre a violência da televisão e dos filmes e a dos videojogos está no facto de estes serem uma experiência interactiva, por oposição à experiência passiva de se ver um filme ou um telejornal. “Há estudos que mostram que crianças que jogam ficam mais agressivas do que as que simplesmente vêem jogar”.

Bartholow conduziu várias experiências, com jovens adultos (em idade universitária) e com jovens no final da adolescência, e concluiu que aqueles que interagem com jogos violentos tendem a ser mais tolerantes com violência e a ter um comportamento mais agressivo.

No ambiente das experiências de laboratório, isto significa estarem mais predispostos a deixar que outra pessoa seja incomodada com ruídos desagradáveis ou ingira comida muito picante (“Ainda há quem faça experiências com choques eléctricos”, lembra). Na vida real, agressividade também não é necessariamente um sinónimo de violência física. “A definição psicológica de agressão é ‘ter a intenção de causar mal a outra pessoa’, seja isso sob a forma de dar um murro na cara de alguém, ou fazer um comentário rude ou ser mais agressivo a conduzir. Há vários níveis. Claro que as pessoas estão mais preocupadas com a violência física.”

O efeito dos videojogos, porém, varia consoante vários factores. A começar pela idade. Embora ressalve haver pouca investigação na área, Bartholow diz ser mais provável que a exposição a um videojogo violento tenha mais efeito na adolescência (quando o cérebro ainda está em formação) do que no período adulto.

Para além disto, há factores individuais a ter em conta, como a educação de cada pessoa e os traços de personalidade. “Há pessoas que não são afectadas pelos videojogos. Estão protegidas por uma série de razões”.

Os eventuais problemas parecem surgir nos “níveis elevados de exposição” – ou seja, nos casos de quem joga pelo menos diariamente. Mas o investigador sublinha que não tem uma receita para o consumo de videojogos. “Acho que as pessoas têm o direito de escolher aquilo a que se expõem. É como fumar. Um cigarro de vez em quando não faz muito mal. E também nem toda a gente que fuma vai ter cancro de pulmão”.

Link para a notícia: Videojogos aumentam a tolerância à violência, diz especialista – Tecnologia – PUBLICO.PT.

Um assunto importante para reflexão…

Abraços

DG 2011