Personalidade

“A nossa personalidade deve ser indevassável, mesmo por nós próprios: daí o nosso dever de sonharmos sempre, e incluirmo-nos nos nossos sonhos, para que nos não seja possível ter opiniões a nosso respeito”

Fernando Pessoa


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O termo personalidade refere-se a qualidades únicas e duradouras do indivíduo, dos seus sentimentos, dos seus objectivos e define padrões de comportamento. Determina a sua individualidade pessoal, distinguindo-o das restantes pessoas. Trata-se da organização interna dos sistemas psicológicos do indivíduo que determinam o seu ajuste individual ao ambiente. Dito de outro modo, toda a gente tende a confrontar-se com situações stressantes com um estilo individual, mas repetitivo. Por exemplo, algumas pessoas tendem a responder sempre a uma situação problemática procurando a ajuda de outros. Outras assumem sempre que podem lidar com os problemas por si próprias. Algumas pessoas minimizam os problemas, outras exageram-nos. Ainda que as pessoas tendam a responder sempre do mesmo modo a uma situação difícil, a maioria é propensa a tentar outro caminho se a primeira resposta for ineficaz, quando isso não acontece podemos estar perante uma perturbação da personalidade.

O termo deriva do latim persona, com significado de máscara, designava a “personagem” representada pelos actores teatrais no palco. A personalidade permite que nos reconheçamos e sejamos reconhecidos mesmo quando, ao desempenhar os vários papéis sociais, usamos diferentes máscaras.

A formação da personalidade é processo gradual, complexo e único a cada indivíduo. A personalidade é uma construção pessoal que decorre ao longo da nossa vida. A personalidade não se pode isolar de aspectos pessoais como a dimensão fisiológica, emocional, intelectual, sociomoral, não sendo também independente da consciência e da representação de si, que cada um tem, nem da sua auto-estima.

Perturbações da personalidade

As pessoas com perturbações da personalidade são tão rígidas que não se conseguem adaptar à realidade. Os seus padrões desadaptados de pensamento e de comportamento tornam-se evidentes no início da idade adulta, frequentemente antes, e tendem a durar toda a vida. São pessoas propensas a ter problemas nas suas relações sociais, afectivas, familiares e no trabalho.

As pessoas com alterações da personalidade não têm, geralmente, consciência de que o seu comportamento ou os seus padrões de pensamento são desadequados; pelo contrário, muitas vezes pensam que os seus padrões são normais e correctos. Frequentemente, os familiares ou os assistentes sociais enviam-nos para receber ajuda psiquiátrica porque o seu comportamento desadequado causa dificuldades aos outros.

Personalidade paranóide

As pessoas com uma personalidade paranóide projectam os seus próprios conflitos e hostilidades para os outros. São geralmente desconfiados, tendem a encontrar intenções hostis e malévolas por trás de actos triviais de outras pessoas e reagem com suspeição às mudanças (ideias paranóides). Muitas vezes, as suspeitas conduzem a comportamentos agressivos ou à rejeição por parte dos outros (resultados que parecem justificar os seus sentimentos originais).

Personalidade esquizóide

As pessoas com uma personalidade esquizóide são introvertidas, metidas consigo mesmas e solitárias. Estas pessoas não sentem a necessidade de formar relações sociais com os outros. Muitas vezes estão absortas nos seus próprios pensamentos e sentimentos e não se aproximam dos outros. Falam pouco, são dadas a sonhar acordadas.

Este tipo de personalidade é considerada um factor de risco para o desenvolvimento de esquizofrenia, embora isso não aconteça na maioria das vezes.

Personalidade esquizotípica

As pessoas com uma personalidade esquizotípica, tal como as que têm uma personalidade esquizóide, encontram-se social e emocionalmente isoladas. Desenvolvem, além disso, pensamentos, percepções e comunicações insólitas. São habitualmente consideradas como excêntricas.

Algumas pessoas apresentam pensamento mágico (a ideia de que uma acção particular pode controlar algo que não tem qualquer relação com ela). Por exemplo, uma pessoa pode acreditar que vai ter realmente má sorte se passar por debaixo de uma escada ou que pode provocar danos a outros através do pensamento.

Embora por vezes tenham pensamentos e atitudes semelhantes às pessoas com esquizofrenia e embora a personalidade esquizotípica seja um factor de risco para esquizofrenia, a maioria não desenvolve esta doença.

Personalidade histriónica

As pessoas com uma personalidade histriónica procuram de um modo notório chamar a atenção e comportam-se teatralmente. As suas maneiras vivamente expressivas têm como resultado o estabelecimento de relações com facilidade, mas de um modo superficial. As emoções parecem muitas vezes exageradas, infantilizadas e idealizadas para provocar a simpatia ou a atenção dos outros. A pessoa com personalidade histriónica mostra-se inclinada a comportamentos sexualmente provocatórios ou a sexualizar as relações não sexuais. Podem não querer, na realidade, uma relação sexual; antes pelo contrário, muitas vezes os seus comportamentos sedutores encobrem o seu desejo de dependência e de protecção.

São pessoas muito dependentes dos outros, sedutoras e sugestionáveis.

Personalidade narcisista

As pessoas com uma personalidade narcisista têm um sentido de superioridade e uma crença exagerada no seu próprio valor ou importância, o que os psiquiatras chamam «grandiosidade». As pessoas com este tipo de personalidade podem ser extremamente sensíveis ao fracasso, à derrota ou à crítica e, quando se confrontam com um fracasso, para avaliarem a alta opinião de si próprios podem ficar facilmente raivosos ou gravemente deprimidos. Como pensam que são superiores nas relações com os outros, esperam ser admirados e, com frequência, suspeitam que os outros os invejam. Sentem que merecem que as suas necessidades sejam satisfeitas sem demora e, por isso, exploram os outros, cujas necessidades ou crenças são consideradas menos importantes. O seu comportamento é muitas vezes ofensivo para outros, que os acham egocêntricos.

Personalidade anti-social

As pessoas com personalidade anti-social (noutro tempo chamada psicopática ou personalidade sociopática), desprezam os direitos e os sentimentos dos outros. São incapazes de ser empáticos (porem-se no lugar da outra pessoa) e apresentam comportamentos sociais inadequados.

Exploram os outros para obter benefício material ou gratificação pessoal. Caracteristicamente, tais pessoas exprimem os seus conflitos de forma impulsiva e irresponsável. Toleram mal a frustração e, por vezes, são hostis e violentas. Apesar dos problemas ou do dano que causam a outros pelo seu comportamento anti-social, não sentem, tipicamente, remorsos ou culpabilidade. Ao contrário, racionalizam cinicamente o seu comportamento ou culpam os outros. A frustração e o castigo raramente os levam a modificar os seus comportamentos.

As pessoas com personalidade anti-social tendem ao alcoolismo, à toxicodependência, aos desvios sexuais, à promiscuidade e a problemas com a lei. São propensas ao fracasso nos seus trabalhos e a mudarem-se de um sítio para o outro. Têm uma esperança de vida inferior à média..

Personalidade estado limite ou borderline

As pessoas com uma personalidade limite são instáveis na percepção da sua própria imagem, no seu humor, no seu comportamento e nas suas relações interpessoais (que muitas vezes são tempestuosas e intensas). Essa instabilidade muitas vezes desorganiza a vida familiar e profissional, o planeamento a longo prazo e o sentido de identidade pessoal do indivíduo.

São muito sensíveis à rejeição, reagindo com raiva e angústia a pequenas separações, esse medo do abandono parece estar relacionado com a dificuldades em se sentirem emocionalmente ligados a pessoas importantes quando estas se encontram fisicamente ausentes. Podem ocorrer ameaças e tentativas de suicídio, juntamente com a raiva, no casos de abandonos e desapontamentos percebidos pelos indivíduos.

As pessoas com PPL apresentam outros comportamentos impulsivos, como gastos excessivos, comer compulsivamente, abusar de drogas e álcool, sexo de risco ou condução arriscada.

É frequente que estas pessoas tenham outros problemas psiquiátricos, especialmente perturbação bipolar, depressão, ansiedade, abuso de drogas/álcool e outras perturbações de personalidade.

Personalidade evitante

As pessoas com uma personalidade evitante são hipersensíveis à rejeição e temem começar relações ou qualquer outra coisa nova pela possibilidade de rejeição ou de decepção. Estas pessoas têm um forte desejo de receber afecto e de serem aceites. Sofrem abertamente pelo seu isolamento e falta de capacidade de se relacionarem comodamente com os outros. Ao contrário daquelas que têm uma personalidade limite, as pessoas com uma personalidade esquiva não respondem com a cólera à rejeição; em vez disso, apresentam-se tímidas e retraídas.

Personalidade dependente

As pessoas com uma personalidade dependente transferem as decisões importantes e as responsabilidades para os outros e permitem que as necessidades daqueles de quem dependem se anteponham às suas próprias. Não têm confiança em si próprias e manifestam uma intensa insegurança. Muitas vezes queixam-se de que não podem tomar decisões e de que não sabem o que fazer nem como fazer. Rejeitam dar opiniões, embora as tenham, porque temem ofender as pessoas de que necessitam.

Personalidade obsessivo-compulsiva

As pessoas com personalidade obsessivo-compulsivo são formais, fiáveis, ordenadas e metódicas, mas muitas vezes não se conseguem adaptar às mudanças. São cautelosas e analisam todos os aspectos de um problema, o que dificulta a tomada de decisões.

Os indivíduos com uma personalidade obsessivo-compulsiva assumem as suas responsabilidades com tanta seriedade que não toleram os erros e prestam tanta atenção aos pormenores que não conseguem chegar a completar as suas tarefas. Consequentemente, estas pessoas podem entreter-se nos meios para realizar uma tarefa e esquecer o seu objectivo. As suas responsabilidades criam-lhes ansiedade e raramente encontram satisfação com os seus êxitos.

Podem sentir-se desligadas dos seus sentimentos e incomodadas com as suas relações ou outras situações que não controlam, como acontecimentos imprevisíveis.

DG 2008


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7 thoughts on “Personalidade

  1. Uma pessoa com personalidade borderline pode ter interrupções nas suas atitudes por tomada de consciência e durante períodos como a gravidez e o período pós-parto?

  2. A minha filha, com 16 anos, tem uma personalidade completamente dentro do que chamam de “anti-social, desde há vários anos.
    Existe alguma forma de a ajudar a mudar o comportamento?
    Já ANdou em psicologos mas ela é mais esperta que eles, o psiquiatra ignorou toda a informação que lhe dei e acabou a consulta a dizer “daqui a 2 anos fazes 18 e podes fazer o que quiseres sem que a tua mãe te possa chatear”…….
    Será que eu sózinha posso ajudá-la de alguma forma?

    • Seria importante esclarecer se esses comportamentos “anti-sociais” configuram uma perturbação de comportamento ou não. Por vezes os adolescentes têm comportamentos disruptivos como forma de demonstrar mau estar com alguma situação, por vezes existe mais facilidade em falar com um técnico neutro do que com a família.
      Os pais de qualquer modo têm um papel fundamental e não devem desistir de tentar comunicar com os filhos com estes comportamentos.
      Abraço
      DG

    • Madalena, eu tenho o mesmo problema que você. Minha filha de 16 anos me responde, fala palavrão, me desobedece e me desafia. Diz que odeia os pais. Como está a sua situação? Sua filha está mais calma? Poderíamos trocar idéias. Acho importante conversar sobre isso, mas não tenho coragem de falar com meus parentes e amigos pois não gosto de expor meus problemas familiares.

      • Patrícia,

        Infelizmente só hoje vi esta sua mensagem, possívelmente já não irá ler o que estou a escrever.
        Gostaria muito de conversar consigo, hoje com 18 anos a minha filha continua basicamente na mesma, o problema não é da adolescência mas sim disturbio de personalidade que nessa altura se manifestou em força.
        Se aqui vier deixe o seu email que eu passarei a vir com regularidade verificar.
        Obrigada

  3. Boa tarde. O meu nome é Ruben, estou no 10ºano do curso Psicossocial, e já sofri excecivamente de bullying durante 6 anos. E por consequência isto levou a um transtorno Obsesivo-Conpulsivo, na altura foi muito complicado para min, mas agora ao fim de 3 anos estou finalmente “bom”! E devo dizer que o voço site tem material que na altura me poderia ter ajudado na altura.

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