Histórias #6

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Miguel – Enviado a 2/Mar/2009

miguel_de_albuquerque@hotmail.com

Ainda é difícil. Difícil lembrar a consciência do passado não muito distante. Difícil recordar o que falhou e o que poderia ter sido. Difícil pensar na magnitude do sofrimento interior que agora se transforma num pontiho escuro no céu escuro da noite. Ainda é difícil muita coisa. Ninguém apaga o passado. Ele, o passado existirá sempre concreto na própria ilusão. Existindo, só temos de saber aprender com esse passado, doce ou amargo, não importa.

Quando tudo doía, nem a própria respiração fazia o sentido necessário. Nem a própria consciência de nos sentirmos vivos fazia algum sentido. Nem a luz do Sol estava certa. O sofrimento vivia por todos os sítios em todos os momentos. Doía viver assim. Doía muitíssimo. Sentir-me atirado contra o muro mais duro que eu achava que se tratava da própria vida fez-me querer desistir quase sem forças, sem ânimo, sem luz. A racionalidade exagerada de tudo no mais brve segundo provocava-me o mais profundo sofrimento. Acordar todos os dias para a realidade própria da sociedade era mais do que doloroso. As mais banais tarefas não tinham jeito para mim. As conversas pareciam inúteis. As pessoas tornavam-se estranhas a todos os momentos. A vida. a vida doía tanto e eu queria não existir.

A felicidade que houvera e que tendia a apagar-se cada dia criava em mim a mais pura confusão. Estranha confusão. Sentia-me tão perdido. Sentia-me tão sozinho na vida. Na vida e no mundo. Quando falava com alguém tentava pedir ajuda indirectamente, tentava explicar-me indirectamente mas nunca falava concretamente sobre o meu estado psicológico. Achava que ninguém acreditaria nas minhas palavras duras. Nas minhas palavras que foram quase sempre caladas. Escondidas só dentro de mim. Também achava que poderia ser algo passageiro. Que a adolescência tinha destas sofredoras vivências. Porém eu observava os meus amigos e colegas e muitos deles tinham uma força de felicidade no rosto. O peso do preconceito, que ainda existe, de não querer admitir o meu estado psicológico perante os outros e perante mim próprio também se fez notar.

Tinha um diário onde registava dias, pensamentos, emoções, sentimentos. Houve uma vez que escrevi mais ou menos isto: “Não me consigo libertar da pressão exaustiva da dor da reflexão profunda e irreflectida (…)“. Talvez estas palavras mostrem muito do que foi a angústia e o sofrimento de muitos meses consecutivos.

Tudo o que mais queria na vida nesses tempos era não sofrer assim. Queria a força, a motivação, o ânimo, o sorriso na face, a ausência da dor inútil, a coragem, a felicidade nos contornos dos meus dias.

Quando chegamos ao fundo de nós mesmos e só nós mesmos temos essa percepção, pensamos que temos de tomar uma decisão urgente. Uma decisão de mudança urgente. Eu tive de admitir perante os meus pais o sofrimento que me assombrava noites e dias. É sempre importante falar. Nunca tenham vergonha de falar. Falem com aquelas pessoas em quem mais confiam e saibam que vos amam de verdade. É sempre importante falar. Falando, tudo pode ser resolvido, ou pelo menos pode ser o início da resolução de muitos problemas. A ajuda médica acabou por aparecer. A medicação ajudou-me muitíssimo. Só tenho tristeza pelo tempo perdido. Pelo tempo que não fui nem digno de mim mesmo.

Deixo aqui um conselho a todas as pessoas que lerem estas palavras neste blogue. Acreditem em vós mesmos. Falem. Não tenham medo de lutar por vós próprios. Pela vossa felicidade. Só a vossa felicidade pode dar a força a muitas outras pessoas. Mas é essencial sempre a vossa felicidade. Não desistam nunca de vós. Vocês são importantes para o mundo! Não se deixem levar por preconceitos. Encontrem a vossa força dentro de vós. Procurem médicos, psicólogos, amigos, pessoas que vos possam ajudar de alguma forma. Encontrem a vossa própria felicidade. A vossa própria filosofia de vida e de bem-estar interior. Peço-vos: Não desistam nunca de vós. Acreditem! Lutem! Tenho a certeza que vão ser maiores que os homens.

Agora passados cerca de dois meses sinto-me diferente. O sofrimento e a angústia já não existem. Mas existem as marcas que o tempo fará questão de me ajudar a apagar. Mas ainda é difícil. Esta é parte da história da minha vida. Sou jovem. Tenho sonhos. Todos os sonhos do mundo estão em mim também. O desejo de felicidade para mim e para o mundo é já parte de mim. Mas como vos digo esta é parte da história da minha vida. E todas as histórias têm finais felizes. Gosto de acreditar que assim seja. e que assim possa acontecer com a minha história. uma de tantas histórias no universo dos homens. Que estas palavras sejam lidas por muita gente e ajudem muita gente com a força, com a esperança, com a energia positiva. Hoje, sou feliz. E quero sê-lo sempre até ao fim. Obrigado a todos aqueles que gostam verdadeiramente de mim porque também com a força e apoio que me deram consigo todos os dias vencer o monstro sem rosto. O monstro sem rosto chama-se depressão e já quase não me visita.

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