Histórias #5

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Anónima – Enviado a 10/06/2008

Tenho 19 anos. Desde os 14 que tomo antidepressivos… Não sei o que tenho, não estou bem comigo mesmo, não me sinto integrada em quase nada…tudo o que se passa à minha volta parece uma futilidade…

Desde os 4 anos lembro-me de ver o meu pai a discutir com a minha mãe. O meu pai bebia. O ambiente familiar em casa não era muito agradável. Mas, naquela altura vivia numa pequena aldeia onde todos se conheciam…lembro-me de juntarmo-nos á noite quase sempre na hora do leite, em que se levava a lata cheia de leite ao posto e ficávamos os “velhinhos” no paleio e a “malta nova” a jogar futebol, às escondidas ou outra coisa qualquer que se lembrassem até ser noite…tinha amigos! Parecia que nem havia tempo para pensar na vida. Até aos sete anos vivi nesse ambiente. Era uma criança muito impulsiva, andava sempre a correr, precisava sempre de aprovação…enquanto que o meu irmão (mais novo que eu um ano) era muito mais meigo…

Não conseguia ser diferente. A minha mãe era muito exigente com ela mas também com os filhos e como eu gostava muito de desenhar, ir para a escola era uma alegria, a minha mãe “puxava” por mim para tirar boas notas. E assim era… fazia-me sentir feliz. As professoras gostavam muito de mim e até na terrinha…ela é muito inteligente. Era o centro das atenções!

Mudei de casa. A minha vida mudou tal como a do meu irmão e da minha mãe. O meu pai prometeu à minha mãe que vinha para casa cedo e não andava nos cafés se ela fosse morar para a terra dele. A minha mãe aceitou. Também era uma aldeia, mas as pessoas não se juntavam. Cada um por si. Pessoas ricas não se dão com pobres. As crianças não se juntavam em casa uns dos outros…nós sentíamo-nos uns intrusos… Era frio. A nossa casa estava afastada da aldeia, tínhamos que descer uns 400 metros a pique, mas subir é que custava! Fazíamos isso todos os dias para ir para a escola dois anos, 3ºe 4º classe. Nem sonhava o que me esperava a seguir! Nas férias é que era mesmo o tédio… éramos três, eu mano e mãe. Meu pai só punha os pés em casa às 11 horas ou mais (já bastante bêbado!) e saía as 7 e meia da manhã. …a minha mãe continuava a trabalhar nas terras e nós também…a minha mãe não tinha mais ninguém, estava já com inicio de depressão mas na altura não se sabia que era uma doença.

Ora bem no Verão antes do 5ºano a minha mãe cai durante sete metros em pedra dura a rebolar e aterra em pedra.Foi ao médico. Fizeram curativos a uma ferida que tinha na testa, mandaram fazer exames não partiu nada…deslocou só algumas costelas. Disseram repouso absoluto. Eu tive que aprender a cozinhar, tive que passar tardes e tardes a lavar …Como era mais velha tinha a casa por minha conta, apesar do meu mano me ajudar muito. Para lavar a louça tinha de vestir duas luvas em cada mão (umas de algodão e outras normais)…até o pó da terra “cortava” a pele. O meu pai continuava a beber, a minha mãe estava farta, o meu irmão não podia ouvir a minha mãe…repetia uma duas três vezes a mesma coisa e eu…fui obrigada a ganhar paciência para isto tudo. Não tinha amigos… durante o 5º e 6º fui completamente humilhada por colegas…não tive os melhores professores de telescola, diziam coisas que me magoavam muito e eu não podia dizer nada. Não queria estar neste mundo! Queria fugir mas não podia a minha mãe e o meu irmão ficavam sozinhos…

Sem me aperceber fui criando uma medida de defesa, inventando o meu mundo… criei um escudo. O que acontecia lá fora não me atingia e o que ia no meu coração ficava preso. Nada atravessa o escudo. Entretanto tinha perdido o contacto com os meus amigos de infância. No 7ºano talvez porque quando estudava não pensava nem fantasiava…o ano correu lindamente em termos de estudo…mas em termos emocionais…estava muito mal. Os melhores alunos rapazes interessavam-se por mim mas eu n conseguia falar sequer para um colega de turma quanto mais para uma pessoa que dizia que gostava de mim. Por causa da fantasia, da minha falta de reacção passou a ignorar-me. Doeu muito porque gostava mesmo dele não conseguia exprimir-me atravessar o escudo. Pensava “não preciso dele”. Mas não conseguia partilhar com ninguém a dor de o ter perdido por causa da fantasia. Só o meu irmão soube mas não foi a história toda.

O meu irmão passou a ser o meu melhor amigo… Havia dias e não eram poucos que ia ao quarto dele e estava a chorar. Ele também não desabafava tudo, mas sentia me bem ao tentar confortá-lo. Mas ele nunca deixou de ser engraçado, dizer piadas e fazer-me rir. Estava a estudar queria que fosse jogar bola com ele então ia para debaixo da mesa e começava a fazer-me cócegas nos pés…assim não conseguia estudar e tinha que ir aturá-lo. Ele também não tinha ninguém.

No entanto, no meu 9ºano aconteceu que…nem sei como dizer. Antes de começarem as aulas o meu mano começou por se sentir mal…foi quatro vezes ao médico, nunca mais me esqueço, o pai não queria leva-lo ao médico, como era costume, tinha que trabalhar ( e agora em entrelinhas BEBER). Depois de muito barulho e a minha mãe sempre com o coração nas mãos conseguiu-se convencer o meu pai a levar o meu mano ao médico. Desculpem, mas odiei tanto os médicos que ninguém queira saber! A minha mãe a dizer “ele está com febre há mais de um dia e não baixa e estou a a dar-lhe paracetamol e ibuprofeno de 4 em 4 horas! Tem que fazer alguma coisa”. Gozavam com a minha mãe, “isso é impossivel”, “você é que precisa de medicamentos (era verdade a minha mãe estava com uma depressão mas isso não invalida o que diz)… anda a preocupar o rapaz para que?”, “apanhou uma virose”… Odiei tudo e todos…eu passei mais que uma noite a mudar de 10 em 10 min panos de água fria na testa e no peito do meu irmão…para a minha mãe fazê-lo de dia… e só assim a febre atenuava e não era muito. Ninguém acreditar numa pessoa é duro…nenhum dos médico…

Chegou o dia fatal…uma convulsão dois dias antes do 1ºdia de aulas. De hospital em hospital…acabou em Coimbra no Pediátrico na UCI. Ficou com 95% deficiência. Aguentei muito, a minha mãe desistiu de viver…durante meses vinha me visitar os fim de semana e quando dava jeito vinha a meio da semana. A minha mãe foi então tratada…quase um ano depois daquele dia a minha mãe (ela tem muita força) melhorou muito.

Desinteressei-me dos estudos. Vivia fantasiando. A minha mãe levou-me a uma psiquiatra…foi então que me abri… disse á minha mãe que precisava de apoio psicológico e medicamentos…

O apoio psicológico foi muito importante…consegui abrir uma pequena porta do meu escudo…entretanto continuei a estudar.

Cheguei a ter dores de cabeça insuportáveis, aperto no coração…cheguei a ir a um neurologista. Conclusão tudo o que me dói é devido “aos nervos”… O meu irmão veio para casa. o meu pai não muda. O que vale é que ele tem de fazer fisio e cinesioterapia e a minha mãe vai com ele…já não fica uma semana em casa sozinha.

Eu estou no 1º ano de faculdade. Não está fácil. Até ao 12ºano tive apoio e estou a precisar outra vez…

Gostava de perceber o que tenho afinal…para andar com um humor bastante alterado, tanto estou com vontade de estar com os meus amigos como não quero ver ninguém. quando choro é um alívio, mas não consigo chorar. ainda luto contra a fantasia, principalmente quando estou sozinha ou quando estou sobre muito stress, muitas vezes não aguento. não sei o que tenho será poc (P. Obsessivo-Compulsiva)?… Agora estou muito ansiosa não consigo estudar não tenho necessidade dormir tanto mas agora falo durante a noite e muito…não compreendo….

Se fosse possível gostava que me dissesse de que modo actuam os ISRS (inibidores da recaptação da serotonina)…qual a segurança…o que tenho afinal para estar sempre angustiada…

Gostava de partilhar a minha história…hoje tenho 19 anos… duas das minhas amigas de infãncia já estão casadas uma das quais com uma filha e eu sinto-me uma menina…ingénua, sem vida…

Desculpe ser tão extensa e os erros, mas não tenho mais tempo para rever…devia estar a estudar…


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6 thoughts on “Histórias #5

  1. Antes de mais, queremos dar os parabéns por “abrir o escudo”, dando o testemunho de uma história de vida muito difícil.
    Relativo às questões colocadas, queremos sublinhar a importância de confiar nas pessoas que a tratam, isto no que diz respeito ao diagnóstico feito (pelos sintomas não é possível dizê-lo com exactidão, embora pareça existir uma depressão recorrente, associada a grandes dificuldades a nível de auto-estima), mas também a nível dos tratamentos efectuados. É muito importante por estas dúvidas ao seu psiquiatra ou psicólogo ou médico de família.
    Em relação aos antidepressivos inibidores da recaptação da serotonina, este é um grupo de fármacos muito utilizado e seguro durante a adolescência, estão indicados nas perturbações depressivas e ansiosas. Não tem potencial de dependência, mas tal como todos os fármacos tem alguns efeitos secundários, sendo necessário adaptar doses conforme os doentes. Tem efeito a nível do cérebro, regulando as concentrações de um neurotransmissor, a serotonina, que de acordo com os conhecimentos actuais está alterado nos estados de ansiedade e depressão. DG 2008

  2. A tua historia é muito triste e nota-se que sofreste muito na tua vida perdendo todos os que te amaram mas nunca percas esperanças, a tua mãe irá um dia esquecer estes problemas e avançará na vida,o teu irmão irá sempre te fazer feliz mesmo que não te apercebas disso,o teu pai ir-se-a arrepender de tudo o que provocou e tu irás seguir uma grande vida não utilizando um “escudo” mas sim aceitando as pessoas que queres aceitar.
    Espero que consigas seguir com a tua vida sempre para o bem.

  3. Isaque,

    Antes de mais obrigada pelo comentário.
    E sim, parece que estou a seguir uma vida mas, infelizmente, ainda recorro muitas vezes à fantasia. E tem sido muito difícil conciliar tudo, mas vou andando por aí. Já que não consigo vencer a fantasia vou controlando-a, mas sinto-me muito frustrada, fraca e sempre muito carente. Sou assim tenho que lidar comigo.

    • Gostaria de dizer que também descobri há pouco tempo ter transtorno de personalidade Evitante e Obsessivo-Compulviva, com traços de personalidade dependente devido à evitação… Além disso tenho hiperlexia. Pode acreditar, a melhor saída virá de quando você resolver não ter medo de enfrentar, não o que você é, mas o pensamento de evitar descobrir quem pode ser se puser as cartas na mesa, detalhas e escandir quem você é – afinal ninguém melhor pra conhecer TUDO sobre você mesma; coisas aquelas que não dividimos com ninguém por mais íntimo que chegue a ser – e decidir o que quer manter, o que é aspecto SEU; e atitudes e reações, principalmente, como também percepções e interpretações, essas que não sabemos se são reflexo de nossa condição patológica ou “correta”, “real”, pontos de vista embasados nas crenças próprias que nos enraizaram a condição de ver tudo sob esse ângulo, ou se são pontos de vista que, embora não sejam aceitos pela sociedade, ainda seriam assim recebidos por eles caso fôssemos “normais”, inteiros, comuns, e se acreditarmos que queremos manter essas convicções, e separá-las dessa outra parte, porque é é direito nosso mantê-las. Achei bastante esclarecedora a resposta a você, quando afirmou que você deve modificar apenas o que lhe faz mal e prejudica seu bem-estar. Pode acreditar, calar e aceitar fazer coisas que lhe prejudicam não faz bem nenhum, eu sei disso muito bem porque aceito passivamente situações que me desconfortam, vomito, me auto-flagelo, auto-mutilo, tenho tensão ansiosa e vomito bastante, tenho momentos depressivos e tive minha terceira tentativa de sicídio, a última concreta e quase bem-sucedida. Foi um pedido de socorro. Tenho apenas 20 anos que completei no mês passado, e estou iniciando psicoterapia agora. Acredite, meu pavor é tremendo de não saber o que me espera, ainda mais porque sou obsessiva-compulsiva. Minha irmã anda passando pelo mesmo que você a fantasiar, não consguir concentrar-se nos estudos… E vê-la passar pelo mesmo passei é como sofrer tudo novamente. Não ser completa e não ter controle sobre mim e conhecer aspectos que me eram tomados como meu eu de repente serem aspectos de uma “condição” não me deixaram tranquila, ainda mais porque sou extremamente ansiosa, e não vou nem um pouco com a cara do meu psiquiatra. Mas minha terapeuta me faz sentir bem segura, apesar que demoro muito a confiar nas pessoas, mas ando esperando que elas supere minhas expectativas porque somente confiando muito nela terei alívio para prosseguir sem tensão na jornada de não sofrer com inaptidões minhas que tentarei solucionar, ser adulta, ter autonomia, e não deixar de ser altamente empática com todas as pessoas, porque aprovo muito esse comportamento em mim, e gostaria de superar apenas a incapacidade de negar e expor minha vontade e defendê-la ainda diante desse entendimento do lado do outro. Sou quaker e não gostaria de excluir meus aspectos que acredito serem virtudes quando todos os condenam e não os recebem bem; mas será meu desafio aceitar que nem todos vão gostar de mim e que isso deve ser natural, e que não preciso dessa condição para conseguir o que desejo. Me falta apenas aprender a pôr isso em prática. Mudei de casa, estou morando com meus avós que me proporcionam um ambiente de mais paz embora não saibam ainda da minha condição, e embora nos fins de semana quando sei que meu pai virá eu ainda comece a vomitar e sofrer com crises de ansiedade e tensão, pretendo superar a reação doentia que sua presença me provoca e a culpa por me sentir assim em relação a uma pessoa que não tem culpa de seu comportamento patológico ainda não especificado, provavelmente bipolar. Ter que continuar me submetendo e me culpando é muito destrutivo, e espero mudar isso. Ser capaz de resistir é uma habilidade, e preferir não fazê-lo deve ser uma escolha, não resultado de patologia causando destruição e mal estar. Torna-se altruísmo, abnegação. Não incapacidade. Amar de modo saudável tem de ser pregado e exercido. Espero que você consiga e seja muito feliz, de verdade mesmo, com sinceridade. Amo você especialmente por termos algo em comum, por mais que não seja algo comum. Sei como você é e como se sente. Muito do que você passa é exatamente parecido com min história. E você não está sozinha, porque mesmo sem conhecê-la, eu o conheço em partes de nossa personalidade semelhantes, e confie, eu gosto de você. Você merece sim ser feliz, e só depende muito de você começar a tentar. E não tenha pressa, você saberá como.

  4. Dou-te os meus parabens … és uma rapariga que apesar de tudo tem objectivos. Só me mostraste que os meus problemas são pequenos ao lado dos teus. Espero que tudo na tua vida ganhe um rumo. Pensa que a vida é feita de obstaculos e tu vais ultrapassar este. FORÇA!

  5. Eu tenho13anos e foi mt dificiu pra mim ta aq agora disendo q eu tenho “alto mutilaçao”.Eu tenho isso a 1ano e nao sabia q era uma doença, eu era feliz e n sabia eu adorava ir pro colegio,n ter q vouta pra casa pq sabia q se voltace seria um inferno,eu moro com a minha mae meu pai n liga pra mim,eu acho q tenho depreçao,eu n sou mais feliz a muito tempo desde q passei a morar cm minha vo pq meus pais se separarao eu jurei q n me apegaria a nada pq tudo q me fasia feliz me tomavao tiravao de mim entao desisti de amar,ate agora ta funcionando eu n sinto mais saudade e nem amor,mais antes eu tinha suberado isso,mudei de colegio e descubi q as pessoas de la fasiam parte de mim agora eu fique sem chao desesperada e ainda me mudarao de colegio eu confeço nunca parei de me mutila,a diretora descobriu e ver minha mae minha tia e a diretora falando de mim como se eu n tivesse ali e ainda diser q eu tava me matando aos poucos me deixou nervosa com medo assustada eu n sabia o q eles estavao falando n entendia pq n era aquilo q tava acontecendo comigo eu fiquei tao assustada q quis saber mais sobre a doença eu entendi tudo e eles tavao errados pq n sou loca nuca quis me matar eu juro ,eles me levarao nu picicolago e as coisa começaram a piorar eu n sabia e n sei como me abrir pq todos me magoavam de um geito ou de outro assim eu consegi diser q eu estava bem pra picicologa e nunca mais voutei la,eu n entendo eu era ta alegre foi so eu mudar de escola q eu mudei pra pior eu penço em morte fico com tanta raiva q me vejo matando o professor ou alguem q me pertuba,eu me corto e vejo o rocho da veia em meu pulço eu tenho tanto medo misturado com raiva q persiso ficar contado numeros pra me controlar eu so tenho pesadelos e acordo a noite e n consigo mais dormir a minha mae dis coisa q eu n gosto mais n sao tao agressivas mais eu começo a chorar e me cortar ontem me cortei e fico sangrando por meia hora no maximo n sinto mais a dor e me esqueço e nunca mais lembro o mutivo

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