Histórias #3

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AM – Enviado 26/Fev/2008

A minha história pode ser semelhante à de inúmeras pessoas que nem imaginam que sofrem de Perturbação Obsessivo compulsiva. Ao contar a minha vivência desta doença, sinto que é apenas o mínimo que posso fazer, por mim e pelos outros.

Acordo. São 4 horas da manhã. Levanto-me com cuidado para não acordar a minha gata, que dorme comigo; vou lavar os dentes. Os pensamentos que me dizem que “Sou suja” desaparecem. Volto a adormecer, para acordar 2 horas depois.

São 6 horas da manhã. Mais uma oportunidade de fazer desvanecer os pensamentos de “sujidade”. Após ter lavado mais uma vez os dentes, sinto que posso dormir em paz.

São 10 horas. Acordo cansada, sobressaltada. Os pesadelos habituais. Quero levantar-me, quero aproveitar o dia: tenho de cuidar de mim, procurar um trabalho, retomar a vida que está parada há dois anos. Permaneço imóvel, na cama. Os pensamentos que me dizem que nada devo fazer por mim própria falam mais alto. Que não mereço sequer pensar que mereço uma vida normal. Eu não sou normal, dizem eles. “Sou suja”.

Meio-dia. Consigo finalmente levantar-me. Há-que afastar agora a culpa por ter permanecido na cama até tão tarde. O meu dia começou.

A ideia de estar parada agoniza-me. Os pensamentos surgem em massa; há um castigo a cumprir. 20 minutos de exercício deverão chegar. Sim, 20 minutos de exercício moderado. Não, não pode ser moderado, de maneira alguma. Os pensamentos exigem um castigo de sofrimento. O frenesim do exercício tenta sossegar as suas vozes incessantes.

Sou forçada a parar. O corpo dói-me, tenho dificuldade em respirar. Mas fiz o que devia. Tenho que ser magra, dizem-me os pensamentos. Peso 50 quilos e tenho 1,65m. Mas considero-me, permanentemente, com peso a mais. “Sou suja”, ouço mais uma vez. O banho irá apaziguar esta voz.

O Banho está repleto de rituais. A ordem pela qual a roupa é despida, a ordem pela qual é colocada, invarialmente, no chão da casa de banho. O Banho é o ritual supremo de limpeza. Tudo segue uma ordem: a lavagem do cabelo, a colocação do amaciador, repartido ordenadamente pelo cabelo, 2 vezes. A lavagem do corpo exige que as mãos sejam lavadas sempre que toco nas partes “sujas”. Sim, nas partes “sujas” do meu corpo, nas mais “sujas” de todas. Só depois de lavar novamente as mãos, é que sou “autorizada” a passar o creme pelo resto do corpo, ou quase todo. Há partes do meu corpo que não menciono. Há partes do meu corpo nas quais eu não toco.

A saída do banho é igualmente meticulosa. Tudo deve representar a extrema purificação, a redenção perante a Culpa. A Culpa é a minha sombra, a Culpa está sempre lá. A escovagem do meu cabelo pode demorar 30 minutos: a perfeição impera.

A primeira refeição do dia traz consigo de volta os pensamentos de sujidade. De que não mereço alimentar-me, ou sentir-me saudável, e bem. Vão mais longe que isso, os pensamentos que tenho: alimentar-me a mim mesma é uma doença para o mundo. Estar viva é uma doença para o mundo. Não sou normal, sou “amaldiçoada”, e mereço todos os castigos a que sou “forçada”.

São 13 horas. 60 minutos de dedicação pura aos rituais que “tenho” de cumprir. 60 minutos de pensamentos obsessivos, a cada segundo, eu ouço que “sou doente”, “suja”, e faço mal ao mundo, simplesmente por existir. 60 minutos em que cada gesto e pensamentos são submetidos a julgamento: o Julgamento que decide os castigos a cumprir, pelos crimes cometidos por estar viva. 60 minutos que poderiam ser subdivididos em inúmeros rituais obsessivos.

Neste preciso momento, é uma hora da manhã. Tenho tanto medo que o que acabei de escrever faça “mal” aos outros. Sentimentos de culpa surgem instantaneamente. Mas desta vez, eu falei mais alto. Contar um centésimo que seja do que esta doença me faz sofrer, pode ajudar tantas pessoas que sentem o mesmo que eu.

Nunca, nunca, escolham o silêncio. Peçam toda a ajuda que conseguirem, falem e escrevam, gritem!, mas nunca escolham o silêncio. Leiam o mais que puderem sobre esta doença, escrevam e conversem o máximo que puderem sobre ela, sobre o que sentem. Um dia, havemos de calar estes pensamentos para sempre.

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