Histórias #2

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CB– Enviado a 1/NOV/2007

A minha vida dava um filme. não, um filme não, antes uma série, agora que as séries estão na moda. e neste sentido, já estou à espera do próximo episódio.

Quando tinha 17 anos, os meus Pais divorciaram-se. a minha Mãe saiu de casa e foi viver para outra cidade, deixando-nos com o nosso Pai, com quem, na altura, não tínhamos muito em comum. Quando íamos visitar a minha Mãe, saíamos desses fins-de-semana com o coração pequenino, angustiadas e a viagem de regresso de comboio era triste, mas aos pouco fomo-nos habituando e deixou de nos custar assim tanto. esse ano, dos 17 aos 18 anos foi muito difícil para mim e para a minha irmã. vivíamos quase em auto-gestão e eu, como irmã mais velha, assumi por estupidez uma atitude autoritária em relação à minha irmã. nesse ano, em vez de me aproximar da minha irmã acho que me afastei ainda mais, até porque éramos muito diferentes… em tudo.

No final desse ano, a minha irmã suicidou-se.

Ainda hoje me custa falar e escrever sobre isso. um irmão suicidar-se é um acontecimento impensável. a culpa que se sente, a ausência, as perguntas que ficam a martelar na cabeça – é inimaginável. a dor que fica. a sensação de desespero que nos consome. e tudo deixa de fazer sentido. nessa altura, parece que a nossa vida nunca mais vai ser a mesma, que vamos para sempre ficar com o vazio e a ausência e a dor gravados dentro de nós a cada instante, em cada momento, insuportável. nessa altura parece que a vida deixa de ter sentido. tudo é grande demais para abarcarmos, compreendermos e digerirmos.

Mas, não sei bem como, aos poucos, a cada dia que passa a dor vai desaparecendo um pouco, nem que seja só um milímetro. a cada dia que passa a saudade vai diminuindo e vão surgindo recordações positivas da pessoa que ficam.

O tempo a seguir a morte da minha irmã foi um vazio total. ao mesmo tempo aproximei-me muito das pessoas que se fizeram presentes e que se preocupavam comigo. acho que essa aproximação é importante, porque o pior que podemos fazer é ficarmos sozinhos com a sensação de desespero. porque nada fazia prever um comportamento daqueles: era uma rapariga gira, com amigos, bem disposta – estava bem (tirando a nossa situação familiar, mas que já não estava tão má quanto isso…) – aparentemente não havia razões lógicas para ela saltar. compreendi que existem depressões camufladas e que possivelmente a minha irmã tinha uma dessas depressões que só se evidencia quando já é tarde demais – depois de a pessoa ter passado ao acto. não sei, nem nunca vou saber se teve alguma coisa a haver com os meus Pais, se teve alguma coisa a haver comigo, o que foi…

Sinto que a bem ou a mal, nos conseguimos habituar e adaptar a quase tudo – e por mais que nos custe, o que temos de preservar é o bom que há dentro de nós, a nossa vida. temos de tentar ao máximo manter-nos unidos aos nossos sonhos mesmo que a realidade à nossa volta seja diferente. sonhar e acreditar.

Aprendi uma coisa, é que não existem famílias perfeitas. a minha família não foi perfeita. foi o que foi. é o que é. e tenho de a aceitar assim, como é. custa. não vou dizer que não custa. nas alturas do Natal e de festa então, custa ainda mais. a altura do aniversário da morte da minha irmã é sempre uma altura em que nos passamos todos um pouco. o que é importante é aceitar as pessoas como são e acreditar que o meu Pai foi o melhor Pai que conseguiu ser, que a minha Mãe foi a melhor Mãe que conseguiu ser, que eu fui a melhor irmã que consegui ser – todos com as nossas limitações, com as atitudes que as circunstâncias nos permitiram. isto não foi nem é fácil e durante muito tempo senti rancor e raiva em ralção aos meus Pais por me terem privado de uma ‘família normal’, com janteres divertidos e um ambiente alegre e leve, como nos filmes. mas aos poucos o rancor e a raiva foram passando, aos poucos fui aceitando as coisas como elas são e vi também que para os meus pais nada disto foi fácil, que eles sofreram imensamente e sofrem todos os dias com tudo isto: com as saudades da minha irmã, com o sentimento de como as coisas podiam ter sido e não foram. isso entristece-me muito.

Outra coisa que aprendi é que ninguém nos conhece totalmente, nem nós conhecemos ninguém na totalidade. eu não conhecia a minha irmã a 100%. há sempre uma parte de nós que é só nossa e que não damos a conhecer a ninguém. há sempre uma parte do outro que nunca vamos conhecer nem atingir e é importante respeitar esse espaço em cada um. porque muitas vezes sentimo-nos muito ligados a algumas pessoas e pensamos que as conhecemos totalmente e que não há segredos. mas isso não é real.

Sei que no fundo sou eu comigo própria e sem mais ninguém – e isso é um pouco assustador. mas é assim. ao longo da vida podemos ligar-nos as pessoas com mais ou menos intensidade. podemos escolher viver a vida com outra pessoa e construir algo de especial. mas se não for esse o caminho, também podemos ser feliz de outra maneira. é tudo uma opção… de nos ligarmos à vida, ao amor – ou de nos desligarmos, como a minha irmã se desligou da vida, dos que a amavam. se calhar não tinha outra opção, pelo menos não viu outra opção naquele momento, que eu acredito que foi um momento de loucura. mas há sempre outra opção. há sempre outra opção, por maior que pareça o desespero, por maior que nos pareça a dor que nos esmaga completamente e nos deixa com um vazio à frente. há sempre outra opção: a opção da vida. de agarrar a vida pela frente a todo o custo. e é verdade que há alturas em que custa, custa muito. mas também é bom saber que somos uma pessoa única, com uma vida única pela frente, com um milhão de possibilidades, caminhos e opções! e isso é mágico… ter a liberdade, a possibilidade de viver livremente a minha própria vida, isoladamente dos outros, percorrer o meu caminho, que é só meu e que pode ser fantástico – está nas minhas mãos.

Tenho medo, claro que tenho medos.

E tenho esperança. esperança de um dia voltar a encontrar a minha irmã. de um dia voltar a sentir aquele sentimento que só se sente entre irmãos e que nunca mais senti e que deixou para sempre um vazio dentro de mim. tenho a esperança de ser uma boa pessoa, de ser uma pessoa melhor a cada dia, que saiba amar e ser amada, que saiba viver em tranquilidade, que é o maior dom que podemos ter. tenho a esperança de ser uma pessoa que saiba optar pela vida, mesmo nas alturas em que só sinta sentimentos de morte.

A minha vida dava uma série… com episódios tristes, e difíceis, mas também com episódios muito felizes. e é a esses episódios felizes, a esses sentimentos bons dentro de nós que nos temos de agarrar e que nos dão força para superar os episódios mais difíceis, é isso que nos distingue, é isso que nos faz crescer, é isso que nos faz sermos pessoas melhores e mais tranquilas.

Todas as vidas são assim…

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2 thoughts on “Histórias #2

  1. Fiquei simplesmente emocionada ao ler esta história de vida e perceber o quanto ela está certa e aprendeu de uma maneira “ruim” mas soube enxergar a vida de outra maneira, parabéns!

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