Histórias #1

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Anónimo – Enviado a 3/OUT/2007

Parabéns pelo blog! Acho que vai ser muito útil..quanto mais agora que a adolescência se prolonga por mais anos e vive problemas bem mais complexos (opinião pessoal, claro).

Tenho uma questão, não sei se será o melhor local para a colocar, mas aqui vai: como se pode diferenciar os problemas associados à intensidade com que o adolescente sente e reflecte os seus problemas de problemas psicológicos mais sérios?

Quando tinha 14/15 anos os meus pais tiveram alguns problemas conjugais, o que me afectou bastante. Essa fase coincidiu com uma mudança do meu grupo de amigos, que também perturbou por uns tempos a minha vida social. Os sinais de depressão começaram a aparecer(insónias, crises de choro, ansiedade, descontrolo e confusão emocional) . Por sugestão dos meus pais fui a um psicólogo que, após várias consultas, indicou que eu teria de ir a um psiquiatra pois precisaria de ser medicado. Esta decisão foi tomada depois de eu lhe ter confessado ter consumido drogas alucinogénas. Para me “convencer” pintou um cenário negro de insanidade permanente em que eu poderia mergulhar a qualquer momento!..e por arrasto os meus sintomas pioraram…correspondiam às piores expectativas!

O psiquiatra diagnosticou psicose tóxica e sugeriu-me várias vezes a toma de antipsicóticos! Que eu rejeitei sempre, pois recusava-me a aceitar que o que eu sentia se devia somente ao efeito da droga. Durante estes tempos li alguns livros sobre o assunto e fui ganhando a noção que estas drogas só intensificam mais a perceção do mundo mental, e que se já tivermos uma visão distorcida do real elas so intensificam mais a distorção. Especialmente um dos livros de Stanislav Grof deixou bem claro que depende sempre do estado mental. Logo, como é que dois profissionais podem descartar a terapia psicológica que eu precisava (por exemplo, resolver a incapacidade que tinha na iminente separação dos meus pais, etc..) e se fixaram histericamente nos consumos de drogas que eu tinha feito?

Após me fixar na ideia que não era uma causa externa (doença) e que dependia grande parte de mim comecei a ter melhoras extremamente rápidas. Sensações “estranhas” passaram a ser reconhecidas como meras focalizações do problema. Reparei que até então uma mera despressurização súbita dos ouvidos e a tontura simultânea “pertenciam” à “minha doença”. Estava assustado com o meu corpo e a minha propria cabeça, só isso. Os profissionais queriam (e quase conseguiram) arrastar-me para a sua histeria!

Hoje em dia sinto-me uma pessoal mentalmente sã (se é que isso existe). E não foi devido ao apoio que recebi; penso que talvez umas conversas sobre o que eu sentia, sem focalizar o consumo das drogas, tinham resolvido facilmente o problema.

Logo, a minha questão é, como é que um profissional pode diferenciar os problemas vividos “normalmente” por um adolescente (que até podem ser fisiológicos, devido às hormonas, não?) de um problema realmente grave que iria necessitar de terapia farmacológica?

Tentei resumir a história mas mesmo assim extendi-me. Peço desculpa por alguma falha de expressão.

Obrigado e cumprimentos!


One thought on “Histórias #1

  1. De facto nem sempre é fácil compreender a diferença entre a normalidade e o patológico na adolescência. Muitas vezes as situações familiares complicadas, como as descritas por anónimo, podem ser causa de descompensações a nível psicológico graves, com consequências graves como por exemplo, o consumo de drogas. Por vezes situações muito mais complicadas não resultam em qualquer perturbação. Em psiquiatria ou em psicologia é impossível falar em causas únicas, existem vulnerabilidades individuais, realidades sociais diferentes, maneiras de reagir diversas. O uso de drogas é sempre um factor destabilizador e que pode, de facto, gerar uma psicose tóxica, onde se calhar no inicio existia apenas um estado depressivo. A toma de medicamentos é um recurso que pode facilitar a resolução do quadro, no entanto é sempre necessário compreender “como se chegou lá”, sobretudo para prevenir a recorrência. Para responder à pergunta, não existe normal ou “anormal”, existem pessoas diferentes. Quando a angústia ou o sofrimento ultrapassam as capacidades de adaptação da pessoa, levando a rupturas profissionais, afectivas e familiares, provavelmente entramos no campo do patológico e nesse campo os profissionais de saúde mental poderão ajudar. DG 2007

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