Drogas

Nesta página referimo-nos a drogas como substâncias ilícitas que são utilizadas pelos seus efeitos psicológicos (psicotrópicos), embora substâncias legais como o álcool, o tabaco e alguns medicamentos (calmantes, estimulantes, analgésicos) sejam muito semelhantes em termos dos seus efeitos e prejuízos.

Quando se fala do uso de drogas existem 3 palavras chave: experimentação; abuso e dependência.

  • Experimentação: estudos europeus revelam cerca de 42% dos jovens entre os 15 e os 16 anos já experimentaram uma droga, tendo os rapazes um ligeiro aumento desta taxa (43%) e as raparigas uma ligeira diminuição (38%). A droga mais experimentada é o cannabis, embora em grupos ligados à “cena nocturna” (raves, discotecas) o uso de múltiplas substâncias seja comum (ecstasy, anfetaminas, cannabis, etc.). Sabe-se que existe uma associação clara entre o consumo de tabaco e o consumo de cannabis (tendencialmente quem consome cannabis também consome tabaco).
  • Abuso: é definido como um padrão de consumo que causa danos à saúde física ou mental. Pessoas que abusam de drogas têm problemas em cumprir as suas obrigações, tal como as do trabalho, da escola ou de casa, para além disso podem ter problemas legais e mesmo assim continuam a consumir. Dados internacionais apontam para que cerca de 4% da população acima dos 12 anos apresente critérios para abuso ou dependência de drogas. A principal população com problemas de abuso ou dependência situa-se entre os 16 e os 24 anos, especialmente em áreas urbanas de má condição sócio-económica, em pessoas isoladas e desocupadas.
  • Dependência: é definida por um desejo intenso de consumir a substância (craving), dificuldade em controlar o comportamento relacionado com a substância (não conseguir parar de utilizar, usar doses maiores que o que queria, consumir em alturas impróprias), estados de abstinência ou “ressaca” quando não se consome, presença de tolerância (necessidade de consumir doses cada vez maiores porque a mesma dose deixa de fazer efeito), negligência de outras actividades de prazer (o único prazer torna-se o consumo, a maior parte do tempo é passado ou a consumir ou em arranjar maneira de obter a droga) e persistência dos consumos apesar de evidente prejuízo para a sua saúde física ou mental.

Porque é que se consomem drogas?

Existem várias causas, 4 factores são importantes:

  • Disponibilidade: uma vez que estão altamente disponíveis a sua experimentação é facilmente acessível. Lembramos que cerca de 10% dos que experimentam uma droga podem desenvolver um problema de abuso ou dependência.
  • Personalidade vulnerável: traços de fragilidade emocional, problemas de ansiedade ou depressão, adolescentes com famílias problemáticas, elevada impulsividade e personalidades caracterizadas por elevada “procura de sensações”, levam ao aumento de risco.
  • Ambiente social adverso: grupos que aprovem o uso de drogas ou que façam pressão para o uso de forma a que o adolescente seja aceite, isolamento social ou dificuldades económicas, são factores que levam ao consumo.
  • Efeitos no cérebro: na generalidade as drogas levam a experiências subjectivas positivas, como euforia ou redução da ansiedade. Isto acontece pela libertação de dopamina (um neurotransmissor) numa área do cérebro chamada “o sistema de recompensa fisiológico”, que envolve o núcleo accubens. Estão também ligadas a alterações no cortex pré-frontal e áreas límbicas, ligadas ao circuito da motivação e regulação do comportamento. Isto leva a que o cérebro fique focado em comportamentos exclusivos relacionados com a obtenção de mais substância e com dificuldades de raciocinar e tomar decisões, nas pessoas com problemas de dependência.

Dependência física vs psicológica

Muitas vezes ouvimos falar que a droga x faz dependência física (e por isso é muito má!) e a droga y faz dependência psicológica (o que não é assim tão mau!). Queremos realçar que a diferença não é assim tanta (e por isso são todas más!).

Falamos de dependência física quando existem fenómenos de tolerância (serem precisas doses cada vez maiores para ter o efeito desejado) ou de abstinência (quando se para de consumir aparecem sensações físicas e também psicológicas desagradáveis).

No entanto, tanto na dependência física como psicológica existem fenómenos comuns como a necessidade de consumir (craving), comportamentos focados na obtenção da substância, dificuldades de raciocínio ou irritabilidade quando não se consome. Estes sintomas são provocados por alterações físicas no cérebro! Ou seja a dependência psicológica também tem um componente físico!

Algumas notas sobre opiáceos

Os opiáceos são substâncias que interferem com os receptores opióides no cérebro, os mais conhecidos são: a heroína, a metadona, a morfina e a codeína (um analgésico).

Variam no tempo que estão em circulação e na sua potência mas são de resto semelhantes. A metadona, a morfina e a codeína são medicamentos que podem ser prescritos em determinadas situações especiais e sob controlo apertado.

São tomados pelos seus efeitos euforizantes, sedativos e analgésicos. Provocam dependência de forma rápida e a tolerância também é rapidamente produzida. Para além dos efeitos desejados produzem depressão respiratória (o que pode levar à morte em caso de overdose), obstipação, contracção das pupilasredução do apetite e da libido (vontade sexual).

Levam a um síndrome de abstinência muito marcado que inclui: desejo intenso de consumir (craving); irritabilidade e insónia; agitação; dores e caimbras musculares; sintomas “tipo gripe”; náuseas, vómitos e diarreia; suores, dilatação das pupilas, aumento da frequência cardíaca; febre ou baixa da temperatura.

A morte em 10 anos pode ocorrer em 10 a 20% dos consumidores pelas seguintes razões:

  • Overdose acidental
  • Suicídio
  • SIDA
  • Hepatite B ou C

Os efeitos na gravidez são: maior probabilidade de prematuros; bebés de baixo peso e bebés com síndrome de abstinência. Isto acontece sobretudo com a heroína.

O tratamento envolve desintoxicação, abstinência total ou terapêutica de manutenção, seguimento em consultas especializadas (envolvendo tratamento médico, psicológico e social).

Algumas notas sobre Cannabis

O cannabis é um derivado da planta Cannabis sativa, contém várias substâncias psicoactivas das quais as mais importantes são: o d-9-tetrahidrocannabinol (THC) e o cannabidiol.

-9-tetrahidrocannabinol (THC) é o componente que leva aos efeitos procurados pela maioria dos utilizadores, nomeadamente alterações da forma como se vê o mundo, distorção da percepção do tempo ou do espaço, maior sensibilidade a experiências artísticas ou espirituais. Ao contrário do que muitos pensam o efeito do cannabis não é por si só euforizante, o seu uso levam ao aumento do estado de humor presente ou seja, se alguém estiver “em baixo” vai-se sentir ainda mais depressivo, se alguém estive “bem disposto” vai ficar ainda mais eufórico.

cannabidiol está ligado a efeitos calmantes (ansiolíticos).

Os principais efeitos secundários do consumo de cannabis são: olhos vermelhos; boca seca; ritmo cardíaco acelerado; irritação das vias respiratórias (tal como o tabaco pode levar a maior risco de câncro do pulmão) e tosse.

O uso de cannabis, especialmente em adolescentes e especialmente nas formas com elevada concentração de THC, tem sido ligado a doenças psiquiátricas graves. O risco de vir a desenvolver uma psicose ou mesmo uma esquizofrenia (doença crónica) é o dobro em jovens que utilizam cannabis! Um estudo calculou que se o cannabis não existisse no mundo 8% das esquizofrenias seriam prevenidas… Dá que pensar!

O uso regular de cannabis afecta a memória e a capacidade de concentração e pode levar a um síndrome de desmotivação (em que uma pessoa está sempre apática e com baixa iniciativa).

Tem também um síndrome de abstinência composto por: irritabilidade, náuseas, insónia e falta de apetite.

Apesar da maior parte das pessoas não desenvolver uma situação de abuso ou dependência de cannabis e, consequentemente, poderem parar de usar quando quiserem, o tratamento desta dependência envolve técnicas psicológicas, eventualmente medicamentos para combater o síndrome de abstinência, mas sobretudo muita motivação.

Algumas notas sobre Estimulantes

Os estimulantes são substâncias que levam ao aumento agudo de certos neurotransmissores, como a dopamina e a serotonina, os mais conhecidos são: as anfetaminas e a cocaína.

As anfetaminas foram inicialmente utilizadas como medicamentos, mas o seu uso foi abandonado com a excepção de um derivado (o metilfenidato) que é utilizado para o tratamento da PHDA ou da narcolepsia. São também conhecidas como “speeds“. Levam a um efeito imediato de euforia, maior desinibição social e maior actividade. Por outro lado levam também a insónia, secura da boca, falta de apetite, dilatação das pupilas e aumento da frequência cardíaca e tensão arterial.

Com doses maiores de anfetaminas podem acontecer arritmias cardíacas, crise hipertensiva, AVC, convulsões, coma ou mesmo morte por colapso cardio-vascular. O seu uso prolongado pode levar a uma psicose, com comportamento agressivo e risco para o próprio!

A cocaína tem bastantes semelhanças com as anfetaminas mas tem um potencial de dependência muito maior e os efeitos pretendidos e prejudiciais são também bastante maiores! Uma versão purificada e ainda com maior potência (e perigo) é o “crack“.

É consumida pelo seu efeito de desinibição, excitação e euforia. Está associada aos efeitos secundários descritos acima, mas com muito maior risco de complicações cardio-vasculares, nomeadamente enfarte cardíaco. A cocaína pode levar também a sintomas psicóticos.

Sobretudo a cocaína, mas também as anfetaminas, levam a um síndrome de abstinência que consiste em: desejo intenso de consumir (craving); depressão por vezes com ideias de suicídio; irritabilidade; fadiga e ansiedade.

As possíveis complicações na gravidez são: abortos; parto prematuro e descolamento da placenta.

O tratamento envolve técnicas psicológicas e fármacos para combater os sintomas de abstinência.

Algumas notas sobre Ecstasy (MDMA)

O ecstasy ou metilenodioximetanfetamina é cada vez mais utilizado por jovens em contextos de saídas nocturnas. As suas características são uma mistura das de um estimulante e das de um alucinogénico, levando a alterações na libertação da dopamina e da serotonina no cérebro.

É utilizado pelos seus efeitos levar a sentimentos de euforia, aumentar a sociabilidade e a intimidade com outros e levar a uma sensação de percepção aumentada do mundo.

O principal efeito prejudicial é a hipertermia (aumento da temperatura do corpo) que associada ao ambiente de discoteca (com muito calor e em exercício constante) pode levar à morte mesmo em adolescentes saudáveis. Raramente, mas possível, pode haver hemorragias cerebrais ou hepatites tóxicas, duas situações muito graves.

Tem sido estudado que o uso de ecstasy de forma repetida está ligado a lesões neuronais, embora ainda não se saiba bem quais as consequências disto a longo prazo (não devem ser muito boas!).

Por vezes as pessoas referem “flashbacks” ou seja, imagens das experiências que tiveram dias ou semanas após a toma da droga, isto pode ser assustador e levar a grande ansiedade.

O tratamento envolve não consumir, se por acaso o fizerem por favor bebam bastante água (não bebidas alcóolicas, que só pioram a situação) e façam intervalos da pista de dança… o cérebro agradece.

Algumas notas sobre Alucinogénicos

Os alucinogénicos podem ser sintéticos como o LSD (dietilamida do ácido lisérgico) ou derivados de espécies de cogumelos contendo psilocibina (cogumelos mágicos).

São utilizados para “trips“, ou seja, distorção ou intensificação das sensações, confusão entre as várias formas de sensações (ex: ouvir cheiros, ver o movimento), experiências de lentificação do tempo ou espirituais.

O que também pode acontecer é aumento da tensão arterial e frequência cardíaca, com possibilidade de AVC ou enfarte cardíaco. Dependendo inteiramente do acaso pode acontecer uma “trip” com medo e pânico intensos ou sensação de estar a enlouquecer (os efeitos podem durar até 14 horas!). Por vezes podem acontecer coisas graves como comportamentos violentos para o próprio ou outros. Ocasionalmente durante o uso da droga a pessoa pode matar-se acidentalmente (por exemplo por achar que pode voar!).

O tratamento implica não utilizar estas drogas, uma vez que habitualmente não existe dependência. Se por acaso encontrarem alguém numa destas “trips” e que esteja a fazer coisas que o põe em perigo, tentem falar com ele para se acalmar (trazê-lo de volta à realidade, explicar que são efeitos da droga). Se a situação se descontrolar é preciso ir a um serviço de urgência.

Algumas notas sobre Solventes

O seu uso é mais comum do que se pensa em jovens, sobretudo de meios desfavorecidos e é mais prejudicial do que muitos imaginam. Os solventes mais comuns são: colas (“snifar cola”); petróleo; tolueno; acetona; diluentes e muitas outras substâncias voláteis.

Os efeitos são semelhantes aos do consumo de álcool mas mais rápidos a aparecer e desaparecer. É habitual a euforia inicial, seguida de uma fase de lentificação, sonolência e falta de coordenação.

Os efeitos prejudiciais são muito marcados. Há risco de morte súbita, não esquecer que a maioria destas substâncias são tóxicas (basicamente venenos, ninguém se lembraria de beber diluente ou cola, pois não?) podendo levar a insuficiência cardíaca ou respiratória. Para além disso podem acontecer lesões neuronais em consumidores crónicos, levando a doenças neurológicas graves.

O tratamento envolve a paragem do consumo, a restrição de venda destas substâncias a menores e a educação acerca destas drogas.

Para ler mais

Uma apresentação em português sobre o efeito de várias drogas no cérebro: http://www.jellinek.nl/brain

O site do Instituto da Droga e Toxicodependência para jovens: http://www.tu-alinhas.pt

 

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