Pais e adolescentes problemáticos

problematic adol/fatherUma grande maioria dos adolescentes que vemos nas consultas de Psiquiatria e Psicologia, sobretudo com problemas de comportamentos (faltas às aulas, agressividade, falta de respeito por regras, consumos de drogas e álcool, fugas de casa, comportamentos auto-lesivos, etc.), vêm acompanhados de pais desesperados, preocupados, “no limite”, que de forma quase constante nos dizem: “não sabemos mais o que fazer com ele/a!

Quando escutamos atentamente as famílias compreendemos que o problema vêm de há muito tempo, que se insinuou de forma quase invisível até à altura em que os filhos entram na fase da adolescência. Ausência de padrões consistentes de educação, de negociação de regrascomunicações altamente perturbadas,  dificuldades de adaptação dos pais ao crescimento do seu filho (que deixou de ser uma criança), etc.

Os pais procuram “soluções milagrosas“: “um medicamento para o controlar”; “uma terapia”.

Estes “milagres” não acontecem!

Dar a volta a estes problemas implica que toda a família se envolva, que mude os seus padrões de relacionamento e de comunicação. O adolescente, na maioria das vezes é isto que quer e o “comportamento perturbado” é a forma que arranjou para comunicar isto à família.

Quando o adolescente, a família e os terapeutas compreendem isto e quando se motivam para avançar no sentido da mudança necessária, aí sim o “milagre acontece”!

O Professor Daniel Sampaio escreveu um livro que recomendamos muito nestes casos: “Lavrar o Mar“. Esta obra pode ser um ponto de partida para os pais que se questionam sobre estes assuntos e a sua leitura é algo que recomendamos!!

DG 2013

A propósito dos mediáticos casos de violência entre adolescentes…

Ultimamente os adolescentes “dos dias de hoje” têm sido vitímas de uma onda de crítica muito “violenta” e mediática. Várias reportagens, crónicas e artigos referem generalizações algo abusivas referindo-se a estes como “pessoas sem valores… violentos… sem educação…”. Nesta sequência os comentadores procuram razões para isso, será um problema da sociedade? Da escola? Das famílias?… Dos políticos? Da globalização?…

Não tenho dúvidas que apenas uma pequena minoria dos adolescentes actuais reflecte aquilo que foi visto nos casos recentes de violência com direito a passagem no “horário nobre” das televisões e comentados nas “primeiras páginas” dos jornais (um grande prémio para estes jovens, na nossa sociedade em que é considerada uma vitória o protagonismo nos meios de comunicação social!).

Felizmente a grande maioria dos adolescentes adapta-se às situações (por vezes até bem difíceis) do seu quotidiano, sem recorrer a métodos como a violência, o consumo de drogas ou outros que tais…

Existe claro uma minoria de jovens que apresentam dificuldades nesta adaptação (tal como existe uma minoria dos adultos) e que por vezes recorrem à violência como forma de lidar com os problemas que têm. Existem também pessoas que terão o famigerado “défice de valores e pouca educação” sem dúvida, tal como uma minoria dos adultos. E também há personalidades caracterizadas por violência e desrespeito pelas regras sociais, as chamadas perturbações de personalidade anti-social, que não são de todo exclusivas da adolescência!

O Homem (a espécie humana, em todas as idades e épocas) é instintivamente violento. Depedendo do seu desenvolvimento, do meio envolvente e das suas experiências, irá controlar mais ou menos bem esse instinto. A adolescência é um período de transformação marcada, em que estes impulsos poderão ser visíveis pois a “estação de controlo cerebral” (cortéx pré-frontal) ainda está em maturação. Uma vez que este controlo interno ainda não existe na totalidade é obviamente importante a ajuda dos adultos quer sejam a família, os professores, os políticos, etc… E ajudar é permiti-los crescer, permitindo que explorem alternativas de acção e resolução dos problemas, mas ao mesmo tempo impor limites!

Deixo aqui uma parte do artigo do Prof. Daniel Sampaio que saiu na revista Pública de 29 de Maio 2011, com o título “Raivas adolescentes”, que apresenta uma reflexão sobre este tema:

A raiva é sempre destruidora se for deixada crescer sem a entendermos. Se a enterrarmos, poderá contribuir para uma depressão. Se a “tratarmos” com álcool ou drogas, procurando que essas substâncias a acalmem, passaremos a ter mais um problema. Se a exteriorizarmos sempre, poderemos transformar-nos em alguém conflituoso e insuportável.

É fundamental conhecer a raiva destes adolescentes agressivos. Muitas vezes viveram com pessoas sem controlo emocional, que veicularam sempre a ideia de que a violência tudo pode resolver. Noutros casos, viveram em famílias “perfeitas”, onde ninguém podia gritar e qualquer manifestação agressiva era associada à loucura: na adolescência, na luta pela autonomia, a raiva finalmente libertada encontra nos mais próximos o alvo preferido. Por vezes, são vinganças face a pais maltratantes na infância (abusadores, por exemplo), que explodem quando o medo físico dos familiares é agora ultrapassado por um corpo juvenil cheio de energia.

Compreender não significa mudar. Feita a história da relação, é crucial intervir. Conhecer a raiva. Compreender que não se fica agressivo para sempre. Perceber que não se pode ficar parado, num ritual de progressiva auto-humilhação. Concluir que intimidar os outros nos pode deixar mais sós.

Abraço

DG 2011

Novo conteúdo: Perturbações de Comportamento

Está disponível um novo conteúdo acerca das Perturbações de Comportamento na adolescência: a Perturbação da Conduta e a Perturbação de Oposição-Desafio.

Tratam-se de dois problemas frequentes e que causam grandes dificuldades não só para os adolescentes que deles sofrem mas também para quem com eles lida.

Relembramos no entanto que estes são diagnósticos psiquiátricos e que para o correcto diagnóstico é fundamental a observação por um técnico especializado.

Sugerimos a leitura e atenção para estas condições patológicas:  https://psiadolescentes.wordpress.com/perturbacoes-comportamento.

Um abraço

DG 2011

Adolescentes com comportamentos anti-sociais tem cérebros diferentes

Um estudo recente, publicado no American Journal of Psychiatry, mostrou que adolescentes com comportamentos agressivos e anti-sociais,  associados ao diagnóstico de Perturbação de Conduta têm alterações cerebrais que podem ajudar a clarificar o que se passa com eles.

A Perturbação de Conduta é uma doença psiquiátrica caracterizada por níveis acima da normalidade de comportamentos agressivos e anti-sociais (ex: roubar, bater, intimidar, magoar os outros, incumprimento sistemático de regras). É mais comum em rapazes, podendo iniciar-se na infância ou na adolescência, sendo estimado que ocorra em 5 em cada 100 adolescentes. Pessoas com esta perturbação têm maior risco de desenvolver problemas de saúde fisíca e mental, assim como problemas com a justiça.

Estes investigadores estudaram cérebros de adolescentes através de Ressonância Magnética, tendo verificado que a amigdala e a insula (regiões cerebrais ligadas à compreensão das emoções e do sofrimento dos outros) são significativamente menores em adolescentes com perturbação de conduta.

Esta diferença na capacidade cerebral pode ser “causa” ou “consequência” sendo necessário aprofundar mais o assunto. No entanto fica claro que adolescentes com este tipo de Perturbação necessitam de apoio especial, sobretudo no que toca a serem ajudados “a ver o lado do outro”.

DG 2011

Videojogos aumentam a tolerância à violência

Esta notícia chamou a nossa atenção, retirado do Público de 4/4/2011

O contacto com videojogos violentos torna as pessoas mais insensíveis a situações de violência. Mas isso não significa que todas se tornem agressivas, argumenta o investigador americano Bruce D. Bartholow, que deu esta segunda-feira uma conferência onde abordou um tema sempre controverso.

A exposição a imagens violentas não é um fenómeno novo, lembrou Bartholow, durante uma conferência no ISCTE, em Lisboa. O investigador notou que já na antiguidade romana havia espectáculos violentos, mas defendeu que o actual consumo de informação e entretenimento faz com que as pessoas estejam mais frequentemente expostas a este tipo de estímulos.

Em conversa com o PÚBLICO, o académico argumentou que a diferença entre a violência da televisão e dos filmes e a dos videojogos está no facto de estes serem uma experiência interactiva, por oposição à experiência passiva de se ver um filme ou um telejornal. “Há estudos que mostram que crianças que jogam ficam mais agressivas do que as que simplesmente vêem jogar”.

Bartholow conduziu várias experiências, com jovens adultos (em idade universitária) e com jovens no final da adolescência, e concluiu que aqueles que interagem com jogos violentos tendem a ser mais tolerantes com violência e a ter um comportamento mais agressivo.

No ambiente das experiências de laboratório, isto significa estarem mais predispostos a deixar que outra pessoa seja incomodada com ruídos desagradáveis ou ingira comida muito picante (“Ainda há quem faça experiências com choques eléctricos”, lembra). Na vida real, agressividade também não é necessariamente um sinónimo de violência física. “A definição psicológica de agressão é ‘ter a intenção de causar mal a outra pessoa’, seja isso sob a forma de dar um murro na cara de alguém, ou fazer um comentário rude ou ser mais agressivo a conduzir. Há vários níveis. Claro que as pessoas estão mais preocupadas com a violência física.”

O efeito dos videojogos, porém, varia consoante vários factores. A começar pela idade. Embora ressalve haver pouca investigação na área, Bartholow diz ser mais provável que a exposição a um videojogo violento tenha mais efeito na adolescência (quando o cérebro ainda está em formação) do que no período adulto.

Para além disto, há factores individuais a ter em conta, como a educação de cada pessoa e os traços de personalidade. “Há pessoas que não são afectadas pelos videojogos. Estão protegidas por uma série de razões”.

Os eventuais problemas parecem surgir nos “níveis elevados de exposição” – ou seja, nos casos de quem joga pelo menos diariamente. Mas o investigador sublinha que não tem uma receita para o consumo de videojogos. “Acho que as pessoas têm o direito de escolher aquilo a que se expõem. É como fumar. Um cigarro de vez em quando não faz muito mal. E também nem toda a gente que fuma vai ter cancro de pulmão”.

Link para a notícia: Videojogos aumentam a tolerância à violência, diz especialista – Tecnologia – PUBLICO.PT.

Um assunto importante para reflexão…

Abraços

DG 2011

Bullying criminalizado?

Seguem-se alguns fragmentos da notícia publicada pelo Público em 29/10/2010:

Um aluno com mais de 16 anos que cometa um acto tipificado como bullying poderá ser condenado a uma pena de prisão até cinco anos. Se dos actos praticados resultar a morte da vítima, a pena “poderá ser agravada entre três e dez anos”, segundo a proposta de criminalização da violência escolar, aprovada ontem na generalidade em Conselho de Ministros (CM). O documento, que vai agora ser discutido entre os parceiros sociais, antes de ser submetido à Assembleia da República, abrange “os maus tratos físicos ou psíquicos, incluindo castigos corporais, privações da liberdade e ofensas sexuais a qualquer membro da comunidade escolar a que também pertença o agressor”. Segundo o Ministério da Educação (ME), as “situações menos graves” serão resolvidas pelos responsáveis escolares – com recurso a instrumentos como o estatuto do aluno que já prevê a possibilidade de suspensão do agressor. Quanto às situações mais graves, as punições poderão compreender penas de prisão “de um a cinco anos”, desde que o agressor seja criminalmente imputável, ou seja, tenha mais de 16 anos. Sempre que se verifique “ofensa grave à integridade física”, a pena de prisão poderá ser agravada “entre dois e oito anos”.

Para além da punição, “pretende-se que a criação do novo crime de violência escolar produza um efeito dissuasor, contribuindo para a manutenção da necessária estabilidade e segurança do ambiente escolar”, lê-se no comunicado do CM. Apesar de concordar que a criminalização poderá ter um efeito dissuasor, o psiquiatra Daniel Sampaio avisa que a criminalização “pura e simples” poderá levar pais e professores a demitirem-se do problema. “É preciso é organizar a escola no combate à violência através de um trabalho partilhado entre alunos, professores e pais”

Quando falamos de comportamentos humanos, especialmente aqueles de elevada complexidade que envolvem escolas, famílias, adolescentes e a sociedade em geral, parece duvidoso que uma lei vá alterar o problema de forma significante.

De facto, sem a actuação conjunta das famílias (educando, dando noções de autoridade e respeito, sabendo impor limites), das escolas (responsabilizando os adolescentes pelos seus actos, tomando um papel de mediadores entre vítimas e agressores), dos adolescentes (que devem aprender estratégias para lidar com a frustração, ser activos no seu papel e responsabilidade na escola e fora desta) e da sociedade em geral (valorizando valores não violentos, favorecendo a comunicação e a compreensão do que são a autoridade e os limites das nossas liberdades), não me parece possível resolver o problema do bullying.

DG 2010

Suicídio e comportamentos auto-lesivos em Jovens

Transcrevem-se alguns excertos da notícia que saiu no Diário de Notícias, a 20 de Maio de 2010.

Jovens são quem mais procura ajuda para prevenir suicídios

Metade das pessoas que procuram a consulta de prevenção do suicídio dos Hospitais da Universidade de Coimbra (HUC) têm menos de 24 anos. Em Portugal, houve oito casos de suicídio em jovens dos 11 aos 20 anos em 2007, segundo dados avançados ao DN pelo Instituto Nacional de Medicina Legal (INML). E outros oito só nos primeiros seis meses de 2008.

Em Coimbra, cerca de 20% dos jovens atendidos tornam-se repetentes, com três ou mais comportamentos suicidários, revela o fundador da consulta, Carlos Braz Saraiva. Ou seja, comportamentos autodestrutivos, que nem sempre têm como objectivo o suicídio, mas são um indicador de risco, explica o especialista.

A automutilação e a overdose de medicamentos são mesmo os comportamentos destrutivos mais comuns, segundo um estudo realizado no departamento de Psiquiatria do Hospital de Santa Maria, em Lisboa. O primeiro é aliás mais frequente do que se pode pensar: de acordo com números internacionais, pelo menos 10% dos jovens em idade escolar já se automutilaram, revela Diogo Guerreiro, um dos psiquiatras da consulta. Por isso, vai avançar este ano com um estudo com 700 jovens das escolas de Lisboa para avaliar a verdadeira dimensão do problema. “Não temos ideia de quantos adolescentes nas escolas têm estes comportamentos ou se mutilam, nem quem são e porquê. E só assim se poderá trabalhar em política de prevenção”, diz.

“Nos casos em que as mesmas pessoas nos aparecem mais do que uma vez, a automutilação já se tornou numa estratégia para lidar com conflitos e frustrações”, acrescenta Carlos Braz Saraiva, fundador da consulta de Coimbra, que avançou ao DN outros números que serão divulgados hoje no XXI Encontro Nacional de Psiquiatria da Infância e da Adolescência, em Beja.

Cerca de 70% das mais de mil pessoas que atenderam eram do sexo feminino. A grande maioria das situações (90%) acontecem em casa e não são planeadas, mas resultado de um impulso (80%).

Para o especialista, na origem destes problemas está o sentimento de rejeição, nomeadamente pela família. Mas a grande maioria deste jovens, cerca de 80%, espera que o seu acto os ajude a mudar de vida.

O psiquiatra Daniel Sampaio lembra que é sempre “um sinal de uma adolescência perturbada e uma situação de alarme”, que deve levar a procurar ajuda. Mesmo quando são problemas transitórios ou chamadas de atenção – já que são mais comuns nos adolescentes do que nos adultos – são um sinal de problemas que devem ser tratados, acrescenta Diogo Guerreiro. É que embora este tipo de comportamento não seja sempre acompanhado da intenção de suicídio, estes jovens estão em risco, alerta.

Em 2007, houve oito casos de suicídio em jovens – ou seja, 1,25% do total de casos, que foi de 89. E só no primeiro semestre de 2008 houve outros oito – num ano em que o número de suicídios aumentou para 921.

Nunca é demais chamar a atenção para este problema, apostando em estratégias de prevenção do suicídio, mas também em estratégias de promoção da Saúde Mental.

DG 2010