Uma mala de alumínio. Lá dentro, há testes de alcoolémia, imitações de drogas legais e ilegais, preservativos, jogos, vídeos, seringas. Um conjunto de objectos para usar numa acção pedagógica com o objectivo de prevenir comportamentos de risco. Pesa 15 quilos. Quem a transporta é o médico psiquiatra Luis Patrício, ex-director do Centro das Taipas.
É sexta-feira à noite, faz frio mas mesmo assim dezenas de jovens juntam-se para beber nas ruas de Santos, em Lisboa. Sentados nos degraus de casas, em bancos de madeira à porta dos bares, segurando copos de cerveja, garrafas de vinho envoltas em jornais ou papelão. Alguns têm muito menos de 18 anos. É assim todos os fins de semana. É para lá que Luis Patrício se dirige, acompanhado da psicóloga Leonor Santos com quem costuma trabalhar e de outros psicólogos da associação “Outros Olhares” que também intervêm habitualmente na prevenção de comportamentos de risco junto de jovens.
Dados recentes revelados por Augusto Pinto, da Unidade de Alcoologia de Coimbra do Instituto da Droga e da Toxicodependência (IDT) indicam que cerca de 80 por cento dos jovens com 15 anos consomem bebidas alcoólicas em Portugal…
Patrícia, de 15 anos, com um copo de cerveja na mão, esclarece: “Nestes bares, ninguém se recusa a vender bebidas alcoólicas aos jovens, nem pedem identificação. Só se for no supermercado, mas aí, há sempre um amigo mais velho a quem pedir para ir comprar”.
A mala de alumínio desperta curiosidade quando Luis Patrício se senta junto de quatro jovens que repartem uma garrafa de vinho branco. Apesar da surpresa inicial, depressa se manifestam receptivos ao diálogo. “Qual é o limite de consumo de álcool a partir do qual há risco?” pergunta o médico. “Dois copos? Três?” respondem os jovens, querendo saber: “Isto é para quê? É para entrarmos num estudo?
Luis Patrício tira algumas cartolinas da mala e propõe-lhes que respondam às perguntas lá escritas: “Porquê que bebes?” Resposta: “Para tirar a sede”. “O álcool não tira a sede” explica o médico. “Por exemplo, bebes meio litro de cerveja, urinas mais, desidratas, aumenta a sede.” “Para aquecer”, responde outro. “O álcool não dá calor, retira o calor e não dá energia nem alimenta”.
Assim o médico vai desmistificando muitas das ideias preconcebidas em relação ao consumo de álcool. “Temos de promover uma revolução cultural profunda porque as pessoas continuam a dizer e a pensar que o álcool é bom e os alcoólicos é que não prestam”, diz, sublinhando: “O álcool é uma droga com a qual podemos ter uma relação em determinado tipo de condições e fora das quais não é possível ter uma relação clara”, nota.
Ao deslocar-se aos locais onde os jovens se encontram e convivem, e com recurso aos objectos que guarda no interior da mala, promove a reflexão e dinamiza conceitos de educação para a saúde face a consumos e a comportamentos de risco…
Para este psiquiatra, a droga “não é a substância em si, mas a atitude de a utilizar de uma forma incorrecta, nociva para a saúde”. “Na nossa cultura, o álcool é legal e promovido, é beatificado ou diabolizado e as pessoas não estão informadas sobre a relação que podem ter com ele”, diz o médico. “Pergunte à maioria dos seus amigos qual é a quantidade de álcool que podem consumir sem entrar em patamar de risco para a saúde, pergunte aos profissionais de saúde, e as pessoas não sabem”. E esclarece: “Hoje temos a informação de que um homem não deveria consumir, por dia, mais de duas unidades, dois copos de vinho ou duas imperiais e, por semana, mais de 21 unidades. Uma mulher, não devia consumir semanalmente mais de 14 unidades. Numa ocasião de festa, uma pessoa não devia consumir mais de quatro unidades”…
Quanto aos jovens, já não restam dúvidas: não deviam consumir álcool antes dos 18 anos. Para “esperar que as capacidades do sistema nervoso central atinjam o máximo do seu desenvolvimento antes de ele começar a fazer consumos que possam provocar estragos”, adverte Luis Patrício
Perante a banalização do consumo de álcool entre os jovens portugueses, nos últimos anos, o médico considera que “vale a pena ver onde isso acontece. Em que famílias e em que ambiente”. O que leva estes jovens a procurar e a valorizar mais o que encontram, por exemplo, nas docas, do que o que têm em casa? interroga-se. O mais importante “é o que está por trás do consumo”, salienta E “que educação tiveram os pais para educar os seus filhos?”…
Fica aqui o blog do Dr. Luis Patrício onde poderão ver os resultados desta iniciativa assim como as futuras datas: http://maladaprevencao.blogspot.com.