A propósito dos mediáticos casos de violência entre adolescentes…

Ultimamente os adolescentes “dos dias de hoje” têm sido vitímas de uma onda de crítica muito “violenta” e mediática. Várias reportagens, crónicas e artigos referem generalizações algo abusivas referindo-se a estes como “pessoas sem valores… violentos… sem educação…”. Nesta sequência os comentadores procuram razões para isso, será um problema da sociedade? Da escola? Das famílias?… Dos políticos? Da globalização?…

Não tenho dúvidas que apenas uma pequena minoria dos adolescentes actuais reflecte aquilo que foi visto nos casos recentes de violência com direito a passagem no “horário nobre” das televisões e comentados nas “primeiras páginas” dos jornais (um grande prémio para estes jovens, na nossa sociedade em que é considerada uma vitória o protagonismo nos meios de comunicação social!).

Felizmente a grande maioria dos adolescentes adapta-se às situações (por vezes até bem difíceis) do seu quotidiano, sem recorrer a métodos como a violência, o consumo de drogas ou outros que tais…

Existe claro uma minoria de jovens que apresentam dificuldades nesta adaptação (tal como existe uma minoria dos adultos) e que por vezes recorrem à violência como forma de lidar com os problemas que têm. Existem também pessoas que terão o famigerado “défice de valores e pouca educação” sem dúvida, tal como uma minoria dos adultos. E também há personalidades caracterizadas por violência e desrespeito pelas regras sociais, as chamadas perturbações de personalidade anti-social, que não são de todo exclusivas da adolescência!

O Homem (a espécie humana, em todas as idades e épocas) é instintivamente violento. Depedendo do seu desenvolvimento, do meio envolvente e das suas experiências, irá controlar mais ou menos bem esse instinto. A adolescência é um período de transformação marcada, em que estes impulsos poderão ser visíveis pois a “estação de controlo cerebral” (cortéx pré-frontal) ainda está em maturação. Uma vez que este controlo interno ainda não existe na totalidade é obviamente importante a ajuda dos adultos quer sejam a família, os professores, os políticos, etc… E ajudar é permiti-los crescer, permitindo que explorem alternativas de acção e resolução dos problemas, mas ao mesmo tempo impor limites!

Deixo aqui uma parte do artigo do Prof. Daniel Sampaio que saiu na revista Pública de 29 de Maio 2011, com o título “Raivas adolescentes”, que apresenta uma reflexão sobre este tema:

A raiva é sempre destruidora se for deixada crescer sem a entendermos. Se a enterrarmos, poderá contribuir para uma depressão. Se a “tratarmos” com álcool ou drogas, procurando que essas substâncias a acalmem, passaremos a ter mais um problema. Se a exteriorizarmos sempre, poderemos transformar-nos em alguém conflituoso e insuportável.

É fundamental conhecer a raiva destes adolescentes agressivos. Muitas vezes viveram com pessoas sem controlo emocional, que veicularam sempre a ideia de que a violência tudo pode resolver. Noutros casos, viveram em famílias “perfeitas”, onde ninguém podia gritar e qualquer manifestação agressiva era associada à loucura: na adolescência, na luta pela autonomia, a raiva finalmente libertada encontra nos mais próximos o alvo preferido. Por vezes, são vinganças face a pais maltratantes na infância (abusadores, por exemplo), que explodem quando o medo físico dos familiares é agora ultrapassado por um corpo juvenil cheio de energia.

Compreender não significa mudar. Feita a história da relação, é crucial intervir. Conhecer a raiva. Compreender que não se fica agressivo para sempre. Perceber que não se pode ficar parado, num ritual de progressiva auto-humilhação. Concluir que intimidar os outros nos pode deixar mais sós.

Abraço

DG 2011

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Cannabis e Psicose… outra vez!

Mais uma investigação recente reforça os dados que  ligam a utilização de cannabis ao risco de psicose.

Foi feito um estudo realizado em Melbourne (Austrália) com 625 doentes com o diagnóstico de primeiro surto psicótico (primeira vez que apresentam os sintomas de uma psicose), entre os 14 e os 29 anos, publicado no Schizophrenia Research deste mês, que se focava neste assunto.

Os investigadores verificaram que os doentes que apresentavam abuso ou dependência de cannabis antes dos 14 anos iniciavam a psicose em média 2 anos antes. Estes apresentavam os sintomas psicóticos por volta dos 19 anos, enquanto que as pessoas sem abuso ou dependência de cannabis começavam por volta dos 21 anos.

A conclusão deste estudo é que a utilização de cannabis pode levar a um efeito prejudicial na maturação cerebral (muito importante especialmente numa fase inicial da adolescência!) que leva ao aparecimento de sintomas psicóticos numa idade mais precoce.

A dúvida que fica é: será que se não tivessem consumido cannabis estes jovens poderiam não estar doentes?

DG 2011

Um psiquiatra, uma mala e a prevenção do alcoolismo

Uma iniciativa muito interessante e que continua em curso, fica aqui um excerto da reportagem feita pelo Público em Janeiro de 2011.

Uma mala de alumínio. Lá dentro, há testes de alcoolémia, imitações de drogas legais e ilegais, preservativos, jogos, vídeos, seringas. Um conjunto de objectos para usar numa acção pedagógica com o objectivo de prevenir comportamentos de risco. Pesa 15 quilos. Quem a transporta é o médico psiquiatra Luis Patrício, ex-director do Centro das Taipas.

É sexta-feira à noite, faz frio mas mesmo assim dezenas de jovens juntam-se para beber nas ruas de Santos, em Lisboa. Sentados nos degraus de casas, em bancos de madeira à porta dos bares, segurando copos de cerveja, garrafas de vinho envoltas em jornais ou papelão. Alguns têm muito menos de 18 anos. É assim todos os fins de semana. É para lá que Luis Patrício se dirige, acompanhado da psicóloga Leonor Santos com quem costuma trabalhar e de outros psicólogos da associação “Outros Olhares” que também intervêm habitualmente na prevenção de comportamentos de risco junto de jovens.

Dados recentes revelados por Augusto Pinto, da Unidade de Alcoologia de Coimbra do Instituto da Droga e da Toxicodependência (IDT) indicam que cerca de 80 por cento dos jovens com 15 anos consomem bebidas alcoólicas em Portugal

Patrícia, de 15 anos, com um copo de cerveja na mão, esclarece: “Nestes bares, ninguém se recusa a vender bebidas alcoólicas aos jovens, nem pedem identificação. Só se for no supermercado, mas aí, há sempre um amigo mais velho a quem pedir para ir comprar”.

A mala de alumínio desperta curiosidade quando Luis Patrício se senta junto de quatro jovens que repartem uma garrafa de vinho branco. Apesar da surpresa inicial, depressa se manifestam receptivos ao diálogo. “Qual é o limite de consumo de álcool a partir do qual há risco?” pergunta o médico. “Dois copos? Três?” respondem os jovens, querendo saber: “Isto é para quê? É para entrarmos num estudo?

Luis Patrício tira algumas cartolinas da mala e propõe-lhes que respondam às perguntas lá escritas: “Porquê que bebes?” Resposta: “Para tirar a sede”. “O álcool não tira a sede” explica o médico. “Por exemplo, bebes meio litro de cerveja, urinas mais, desidratas, aumenta a sede.” “Para aquecer”, responde outro. “O álcool não dá calor, retira o calor e não dá energia nem alimenta”.

Assim o médico vai desmistificando muitas das ideias preconcebidas em relação ao consumo de álcool. “Temos de promover uma revolução cultural profunda porque as pessoas continuam a dizer e a pensar que o álcool é bom e os alcoólicos é que não prestam”, diz, sublinhando: “O álcool é uma droga com a qual podemos ter uma relação em determinado tipo de condições e fora das quais não é possível ter uma relação clara”, nota.

Ao deslocar-se aos locais onde os jovens se encontram e convivem, e com recurso aos objectos que guarda no interior da mala, promove a reflexão e dinamiza conceitos de educação para a saúde face a consumos e a comportamentos de risco…

Para este psiquiatra, a droga “não é a substância em si, mas a atitude de a utilizar de uma forma incorrecta, nociva para a saúde”. “Na nossa cultura, o álcool é legal e promovido, é beatificado ou diabolizado e as pessoas não estão informadas sobre a relação que podem ter com ele”, diz o médico. “Pergunte à maioria dos seus amigos qual é a quantidade de álcool que podem consumir sem entrar em patamar de risco para a saúde, pergunte aos profissionais de saúde, e as pessoas não sabem”. E esclarece: “Hoje temos a informação de que um homem não deveria consumir, por dia, mais de duas unidades, dois copos de vinho ou duas imperiais e, por semana, mais de 21 unidades. Uma mulher, não devia consumir semanalmente mais de 14 unidades. Numa ocasião de festa, uma pessoa não devia consumir mais de quatro unidades”…

Quanto aos jovens, já não restam dúvidas: não deviam consumir álcool antes dos 18 anos. Para “esperar que as capacidades do sistema nervoso central atinjam o máximo do seu desenvolvimento antes de ele começar a fazer consumos que possam provocar estragos”, adverte Luis Patrício

Perante a banalização do consumo de álcool entre os jovens portugueses, nos últimos anos, o médico considera que “vale a pena ver onde isso acontece. Em que famílias e em que ambiente”. O que leva estes jovens a procurar e a valorizar mais o que encontram, por exemplo, nas docas, do que o que têm em casa? interroga-se. O mais importante “é o que está por trás do consumo”, salienta E “que educação tiveram os pais para educar os seus filhos?”…

Fica aqui o blog do Dr. Luis Patrício onde poderão ver os resultados desta iniciativa assim como as futuras datas: http://maladaprevencao.blogspot.com.

Fica também a referência à página sobre Álcool do Psiadolescentes!

A totalidade da reportagem encontra-se neste Link: Um psiquiatra, uma mala e a prevenção do alcoolismo entre os jovens – Sociedade – PUBLICO.PT.

Um abraço

DG 2011

Resultados de Estudo em Adolescentes Portugueses

Foram recentemente disponibilizados pela equipa da Aventura Social, da Faculdade de Motricidade Humana, os resultados de um estudo importante sobre comportamentos dos adolescentes Portugueses.

O Health Behaviour in School-aged Children (HBSC) é um estudo colaborativo da Organização Mundial de Saúde que pretende estudar os estilos de vida e comportamentos dos adolescentes nos vários contextos das suas vidas. Integra 44 países, incluindo Portugal, que aderiu em 1996 e é membro associado desde 1998. O primeiro estudo no País decorreu em 1998, seguindo-se os de 2002, 2006 e 2010.

Este estudo revela uma série de dados interessantes e importantes.

Deixamos o link para o pdf que resume os principais resultados: HBSC Adolescentes 2010-11

Este tipo de estudos são fundamentais para que melhor possamos compreender os adolescentes de hoje. Muitos dos parâmetros estudados estão relacionados com a Saúde Mental e por isso no Psiadolescentes não poderíamos deixar de dar os parabéns à Equipa!!

Um abraço

DG 2011

Novo conteúdo: Perturbações de Comportamento

Está disponível um novo conteúdo acerca das Perturbações de Comportamento na adolescência: a Perturbação da Conduta e a Perturbação de Oposição-Desafio.

Tratam-se de dois problemas frequentes e que causam grandes dificuldades não só para os adolescentes que deles sofrem mas também para quem com eles lida.

Relembramos no entanto que estes são diagnósticos psiquiátricos e que para o correcto diagnóstico é fundamental a observação por um técnico especializado.

Sugerimos a leitura e atenção para estas condições patológicas:  https://psiadolescentes.wordpress.com/perturbacoes-comportamento.

Um abraço

DG 2011

Adolescentes com comportamentos anti-sociais tem cérebros diferentes

Um estudo recente, publicado no American Journal of Psychiatry, mostrou que adolescentes com comportamentos agressivos e anti-sociais,  associados ao diagnóstico de Perturbação de Conduta têm alterações cerebrais que podem ajudar a clarificar o que se passa com eles.

A Perturbação de Conduta é uma doença psiquiátrica caracterizada por níveis acima da normalidade de comportamentos agressivos e anti-sociais (ex: roubar, bater, intimidar, magoar os outros, incumprimento sistemático de regras). É mais comum em rapazes, podendo iniciar-se na infância ou na adolescência, sendo estimado que ocorra em 5 em cada 100 adolescentes. Pessoas com esta perturbação têm maior risco de desenvolver problemas de saúde fisíca e mental, assim como problemas com a justiça.

Estes investigadores estudaram cérebros de adolescentes através de Ressonância Magnética, tendo verificado que a amigdala e a insula (regiões cerebrais ligadas à compreensão das emoções e do sofrimento dos outros) são significativamente menores em adolescentes com perturbação de conduta.

Esta diferença na capacidade cerebral pode ser “causa” ou “consequência” sendo necessário aprofundar mais o assunto. No entanto fica claro que adolescentes com este tipo de Perturbação necessitam de apoio especial, sobretudo no que toca a serem ajudados “a ver o lado do outro”.

DG 2011

Videojogos aumentam a tolerância à violência

Esta notícia chamou a nossa atenção, retirado do Público de 4/4/2011

O contacto com videojogos violentos torna as pessoas mais insensíveis a situações de violência. Mas isso não significa que todas se tornem agressivas, argumenta o investigador americano Bruce D. Bartholow, que deu esta segunda-feira uma conferência onde abordou um tema sempre controverso.

A exposição a imagens violentas não é um fenómeno novo, lembrou Bartholow, durante uma conferência no ISCTE, em Lisboa. O investigador notou que já na antiguidade romana havia espectáculos violentos, mas defendeu que o actual consumo de informação e entretenimento faz com que as pessoas estejam mais frequentemente expostas a este tipo de estímulos.

Em conversa com o PÚBLICO, o académico argumentou que a diferença entre a violência da televisão e dos filmes e a dos videojogos está no facto de estes serem uma experiência interactiva, por oposição à experiência passiva de se ver um filme ou um telejornal. “Há estudos que mostram que crianças que jogam ficam mais agressivas do que as que simplesmente vêem jogar”.

Bartholow conduziu várias experiências, com jovens adultos (em idade universitária) e com jovens no final da adolescência, e concluiu que aqueles que interagem com jogos violentos tendem a ser mais tolerantes com violência e a ter um comportamento mais agressivo.

No ambiente das experiências de laboratório, isto significa estarem mais predispostos a deixar que outra pessoa seja incomodada com ruídos desagradáveis ou ingira comida muito picante (“Ainda há quem faça experiências com choques eléctricos”, lembra). Na vida real, agressividade também não é necessariamente um sinónimo de violência física. “A definição psicológica de agressão é ‘ter a intenção de causar mal a outra pessoa’, seja isso sob a forma de dar um murro na cara de alguém, ou fazer um comentário rude ou ser mais agressivo a conduzir. Há vários níveis. Claro que as pessoas estão mais preocupadas com a violência física.”

O efeito dos videojogos, porém, varia consoante vários factores. A começar pela idade. Embora ressalve haver pouca investigação na área, Bartholow diz ser mais provável que a exposição a um videojogo violento tenha mais efeito na adolescência (quando o cérebro ainda está em formação) do que no período adulto.

Para além disto, há factores individuais a ter em conta, como a educação de cada pessoa e os traços de personalidade. “Há pessoas que não são afectadas pelos videojogos. Estão protegidas por uma série de razões”.

Os eventuais problemas parecem surgir nos “níveis elevados de exposição” – ou seja, nos casos de quem joga pelo menos diariamente. Mas o investigador sublinha que não tem uma receita para o consumo de videojogos. “Acho que as pessoas têm o direito de escolher aquilo a que se expõem. É como fumar. Um cigarro de vez em quando não faz muito mal. E também nem toda a gente que fuma vai ter cancro de pulmão”.

Link para a notícia: Videojogos aumentam a tolerância à violência, diz especialista – Tecnologia – PUBLICO.PT.

Um assunto importante para reflexão…

Abraços

DG 2011