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PHDA

Perturbação de hiperactividade e défice de atenção

A perturbação de hiperactividade e défice de atenção (PHDA) foi pela primeira vez descrita, de forma sistemática, por George Still, em 1902, foi conhecida por mais de 25 designações (“disfunção cerebral mínima”, “défice de atenção”, etc.) até atingir a actual descrição.

Os indivíduos com PHDA apresentam um padrão comportamental caracterizado, essencialmente, por um persistente défice de atenção, desproporcional à sua fase de desenvolvimento, com ou sem hiperactividade, impulsividade e/ou distracção. Estes comportamentos poderão iniciar-se nos primeiros anos de vida e, embora os sintomas observáveis possam variar em qualidade e em quantidade durante o desenvolvimento, a maioria dos indivíduos com PHDA continuam a apresentar algumas manifestações na vida adulta.

Estudos recentes indicam que 4-6% das crianças em idade escolar têm PHDA. Prevalências superiores a 20% têm sido descritas em crianças oriundas de meios sócio-económicos menos favorecidos. Esta perturbação é 2 a 8 vezes mais frequente no sexo masculino do que no sexo feminino.

Qual é a causa?

Pensa-se que, na génese desta perturbação, poderão estar implicadas múltiplas causas, das quais se salientam:

  • Factores genéticos: maior incidência desta perturbação nos familiares próximos das pessoas atingidas, particularmente em gémeos; alterações nos genes que codificam o transportador do neurotransmissor dopamina
  • Factores orgânicos adquiridos ou constitucionais: mais frequente em prematuros; foram observadas alterações cerebrais de neurotransmissores (dopamina e noradrenalina); foram também identificadas alterações das dimensões de certas zonas do cérebro (cortéx pré-frontal, gânglios da base)
  • Factores ambientais: a PHDA foi associada a exposição a toxinas, como o chumbo, o álcool, o fumo do tabaco
  • Factores sociais: é mais frequente em elementos das famílias com índices sócio-culturais mais baixos

Acredita-se que o problema principal da PHDA resida num défice entre o processamento da informação recebida e a resposta produzida ou na incapacidade de inibir apropriadamente a resposta até que toda a informação seja processada. Por se tratar de uma doença do neurodesenvolvimento o seu diagnóstico em adultos só pode ser feito se tiverem existido manifestações em criança. É habitual haver uma remissão da sintomatologia e só uma percentagem mais reduzida de casos se mantém na vida adulta.

Como se manifesta?

Uma das principais manifestações da PHDA é a perturbação da atenção ou desatenção, expressa por alguns dos seguintes comportamentos:

  • Falta de atenção aos detalhes, é frequente apresentarem erros na escola ou em outras actividades por desatenção ou descuido
  • Dificuldade em manter a atenção durante as tarefas ou jogos
  • Muitas vezes, parecem não ouvir o que se lhes diz, mesmo quando interpelados de uma forma directa
  • Frequentemente, não seguem instruções e não terminam os trabalhos escolares, as tarefas caseiras ou os deveres profissionais
  • Manifesta dificuldade na organização de tarefas e de actividades
  • Com frequência, evitam, não gostam ou são relutantes em iniciar tarefas que requeiram concentração (como trabalhos escolares, em casa ou na escola)
  • Muitas vezes, perdem objectos importantes ou imprescindíveis a um adequado desempenho em tarefas ou em jogos (brinquedos, livros, material escolar, …)
  • Distraem-se facilmente com estímulos desinteressantes e irrelevantes; muitas vezes, esquecem-se de executar as tarefas diárias comuns

Outro grupo de manifestações relaciona-se com a impulsividade:

  • Facultam respostas a perguntas que não foram completadas
  • Dificuldade em esperar pela sua vez
  • Interrompem ou intrometem-se nas actividades dos outros (interrompem conversas ou jogos)

Um terceiro grupo de manifestações está relacionado com a hiperactividade:

  • Mexem as mãos e os pés e não se mantêm sentados
  • Frequentemente, levantam-se na sala de aula ou em outras situações em que é exigida a posição de sentado
  • Correm, saltam e trepam de uma forma excessiva, em situações inapropriadas
  • Frequentemente têm dificuldade em participar em jogos ou em actividades de uma forma calma
  • Parecem ter uma energia inesgotável e estão sempre na disposição de mudar
  • Frequentemente falam demasiado

As manifestações podem variar substancialmente entre diferentes ambientes (casa e escola; ambientes estruturados e não estruturados; pequenos ou grandes grupos; situações que exijam baixos ou altos desempenhos; etc.). Por isso, pessoas com PHDA podem estar muito atentas em situações que achem fascinantes (como ver televisão ou jogar computador, etc.).

 

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Como já foi referido os existe a possibilidade dos sintomas se manterem na vida adulta, existindo uma “conversão dos sintomas” (ver tabela):

Sintomas de desatenção em adultos

  • Dificuldade em manter a atenção na leitura ou em burocracias
  • Facilmente distraível e “esquecido”
  • Fraca concentração
  • Dificuldade em gerir o tempo
  • Não põe as coisas nos lugares
  • Dificuldade em completar tarefas

Sintomas de hiperactividade em adultos

  • Sente-se irrequieto
  • As mãos ou os pés estão inquietos quando está sentado
  • Selecciona empregos “activos”
  • Fala excessivamente
  • Sente-se oprimido (“overwhelmed”)

Sintomas de impulsividade em adultos

  • Conduz com excesso de velocidade, tem acidentes de viação
  • Muda impulsivamente de empregos
  • É irritável e zanga-se facilmente

Como se trata?

A intervenção terapêutica tem por objectivo o desenvolvimento de um adequado equilíbrio emocional e, também, a optimização do desempenho académico e ocupacional. Embora as manifestações de desatenção e de impulsividade se reduzam, geralmente, com o tempo, o sentimento de baixa auto-estima poderá agravar-se, como resultado da reacção negativa dos companheiros, dos pais e dos professores, entre outros.

Os adolescentes com PHDA podem ser difíceis para os seus pais, professores e colegas. Estão habitualmente num estado constante de actividade o que constitui um desafio para os outros. Uma das medidas essenciais é estruturar o mais possível o dia a dia, e tentar contornar as dificuldades de atenção, medidas simples incluem:

  • Estabelecimento de horários e rotinas – horas específicas para acordar, comer, brincar, fazer trabalhos da escola ou tarefas, ver televisão ou jogar computador e ir para a cama.
  • Regras em casa e na escola – Regras simples, claras e curtas.
  • Ser optimista – Pessoas com PHDA muitas vezes passam o dia a ouvir que estão errados. Eles também necessitam de ser elogiados por comportamentos adequados.
  • Adaptação ao ambiente escolar – Explicar a situação aos professores; sentar-se na primeira fila; verificar se compreendeu as instruções ou explicações; Chamar a atenção para assuntos importantes

O tratamento médico envolve por vezes o uso de psicoestimulantes, acredita-se que eles actuem como neurotransmissores em certas áreas do cérebro, corrigindo as alterações bioquímicas que interferem com a atenção e com o controlo do impulso. Com uma administração criteriosa destes fármacos, consegue-se obter, em 70-80%, melhorias significativas da hiperactividade, da impulsividade e da desatenção.

Outras perturbações que por vezes acompanham a PHDA

Perturbações da aprendizagem

Aproximadamente 20 a 30% podem apresentar uma perturbação da aprendizagem. Na escola podem-se notar dificuldades na escrita, na matemática ou na dicção. A dislexia frequente. 8% pode vir a ter dificuldades na leitura.

Síndrome de Tourette

Uma muito pequena percentagem de pessoas com PHDA apresenta uma esta perturbação neurológica. Caracteriza-se por tics nervosos e maneirismos repetitivos (como piscar os olhos, fazer caretas, tossir repetidamente, espirrar, etc.). Isto pode ser controlado com medicação apropriada.

Perturbação de Oposição-Desafio

Até 1/3 de todos as pessoas com PHDA pode apresentar esta condição. Caracteriza-se por um padrão de comportamento negativista, hostil e desafiador, prolongado no tempo, durante os quais 4 (ou +) das seguintes características estão presentes:

  • Perde a paciência
  • Discute com adultos
  • Desafia ou recusa-se activamente a obedecer a solicitações ou regras dos adultos
  • Perturba as pessoas de forma deliberada
  • Responsabiliza os outros por seus erros ou mau comportamento
  • Mostra-se irritável ou é aborrecido com facilidade pelos outros
  • É colérico ou guarda ressentimento
  • É rancoroso ou vingativo

Perturbação de Conduta

Afecta 20 a 40% dos indivíduos com PHDA, caracterizando-se por um padrão de comportamento anti-social. Estas pessoas mentem, roubam, lutam ou metem-se com os seus pares. Estão em risco de ter problemas na escola ou com a policia. Violam os direitos básicos das outras pessoas, são agressivos com pessoas e/ou animais, destroem a propriedade, invadem casas, cometem vandalismo, utilizam armas e roubam. É frequente “baldarem-se” às aulas ou fugirem de casa por uns dias. Estão em grande risco de se tornar dependentes de substâncias. Necessitam de ajuda urgente!

Ansiedade e Depressão

Algumas pessoas com PHDA podem sofrer com estas perturbações, que poderão ser identificadas e tratadas com o seguimento apropriado.

Doença Bipolar

Não existem estatísticas precisas acerca da co-ocorrência destas 2 situações. Diferenciar entre PHDA e Doença Bipolar na infância e adolescência pode ser difícil. Nas duas condições podem existir alto nível de energia, irritabilidade e diminuição da necessidade do sono.


DG 2007

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