A melhor forma de esclarecer alguém sobre um assunto talvez seja através de perguntas e respostas. As perguntas seguintes penso que representam as principais dúvidas que as pessoas têm sobre esta doença:
- O que é a esquizofrenia?
- O que é que provoca a esquizofrenia?
- A esquizofrenia tem Tratamento?
- É possível prevenir a esquizofrenia?
- Os ‘charros’ podem provocar esquizofrenia?
- Penso que conheço alguém que tem esta doença e não se está a tratar. Como posso ajudá-la?
O que é a esquizofrenia?
A esquizofrenia é uma doença mental que afecta cerca de 1 % da população. Surge geralmente numa idade jovem (final da adolescência início da idade adulta). Faz parte de um grupo de doenças denominadas psicoses. Infelizmente é também uma palavra carregada de grande estigma social. Muita gente já ouviu esta palavra, já a reproduziu, e arrisco dizer, sem uma noção correcta do que é.
Tal como os outros tipos de psicose, é uma doença que tem como característica principal a perda de contacto com a realidade. A perda de contacto com a realidade é caracterizada pela presença de ideias delirantes, alucinações, dificuldade, e desorganização do pensamento. Estes sintomas estão descritos de forma muito clara na secção sobre psicoses. As ideias delirantes podem ser de diversos tipos, desde a pessoa pensar que está a ser perseguida por uma organização criminosa, até ideias mais bizarras, como por exemplo julgar que se tem um chip electrónico na cabeça que faz com que o pensamento seja escutado por outras pessoas. Os próprios limites da consciência de si próprio estão alterados. A pessoa pode sentir que as suas acções são controladas por outras pessoas/entidades, ou que as suas acções afectam os outros de um forma desproporcional (por exemplo, ver uma notícia de um acidente natural e assumir que tal se deveu a algo que fez).
As alucinações podem afectar qualquer um dos 5 sentidos, mas as mais frequentes são as alucinações auditivas. As pessoas com esquizofrenia podem ouvir alguém a falar com elas, comentar o que fazem, ou mesmo várias vozes a falarem entre si. As alucinações auditivas podem também ser mais simples como ruídos, música ou palavras isoladas. Podem ainda ouvir os próprios pensamentos como se fizessem eco, ou como se ouvissem em voz alta. As alucinações podem por sua vez dar origem a interpretações erradas, o que secundariamente leva ao aparecimento de outras ideias delirantes ( como no exemplo referido anteriormente, se parece que os pensamentos se ouvem em voz alta, a explicação que surge pode ser delirante – “Colocaram-me um chip na cabeça que provoca isto!”).
Para além destes sintomas mais aparatosos, a esquizofrenia tem uma outra faceta. As pessoas com esta doença frequentemente apresentam outro tipo de sintomas, igualmente incapacitantes, que se chamam sintomas negativos. Têm este nome porque ao contrário dos anteriores, estes sintomas determinam uma diminuição da actividade. O doente pode parecer mais lento do que as outras pessoas, (quer psicologicamente, quer em relação aos movimentos), apático, sem iniciativa.
Uma outra característica desta doença é que as pessoas que sofrem dela, especialmente durante os episódios agudos, não são capazes de se aperceber que estão doentes. Muitas vezes não colocam a hipótese que as experiências invulgares que estão a viver podem ser provocadas por uma doença que esteja a afectar o seu cérebro. Obviamente se não colocam esta hipótese, muitas vezes não vão procurar ajuda de um médico, e têm tendência a recusar esta ajuda quando ela é oferecida, o que dificulta muito o seu tratamento.
O que é que provoca a esquizofrenia?
A causa ou causas da esquizofrenia não são ainda claras. Não existe uma causa única. Não é uma doença dita genética, no entanto sabes-se que as pessoas com familiares com esquizofrenia têm um risco maior para virem a sofrer desta doença (por exemplo o filho de um casal em que um dos pais tem esquizofrenia tem uma probabilidade 6.5 vezes superior de vir a sofrer de esquizofrenia). Por outro lado existem factores ambientais que parecem ser importantes para o aparecimento da doença, como por exemplo complicações durante o nascimento, consumo precoce de drogas (cannabis), eventos de vida stressantes. É actualmente reconhecido que a doença determina alterações nalguns químicos cerebrais (principalmente num neurotransmissor denominado dopamina).
A esquizofrenia tem tratamento?
Sim. O tratamento básico da esquizofrenia é realizado através da toma de um tipo de medicamentos denominados antipsicóticos. Estes medicamentos têm como principal objectivo equilibrar as alterações dos químicos cerebrais já referidas e assim controlar ou extinguir os sintomas da doença. No entanto o tratamento à base de medicamentos pode ser complementado por abordagens psicoeducativas e psicoterapêuticas que vão não só ajudar no controlo dos sintomas mas também noutros aspectos, como por exemplo, ajudar as pessoas com esquizofrenia a aceitarem que têm uma doença e a reconhecer os seus sintomas de modo a melhorar a adesão ao tratamento.
É de referir que apesar de ter tratamento (ou seja, ser controlável) trata-se de uma doença crónica. Pode controlar-se, mas neste momento ainda não existe cura!
É possível prevenir a esquizofrenia?
Este é um tema controverso e actualmente muito estudado pela comunidade médica. Antes do aparecimento dos sintomas já descritos, pode existir uma fase inicial da doença a qual se designa de pródromos. Nesta fase surgem alterações do comportamento mais inespecíficas tais como isolamento social, alteração da personalidade, depressão. Como são inespecíficas, estas alterações podem ser observadas noutros jovens, que mais tarde não desenvolvem esta doença. Têm sido realizados estudos que procuram perceber se intervenções nesta fase podem ou não evitar o aparecimento da doença. Apesar de alguns resultados promissores, não existe ainda um consenso entre os médicos à cerca deste tema.
Os ‘Charros’ (cannabis) podem provocar esquizofrenia?
A relação entre o uso de drogas (especialmente a cannabis) e a esquizofrenia tem sido controversa. No entanto, têm-se vindo a acumular provas que a utilização de cannabis é um factor de risco para o aparecimento da esquizofrenia, especialmente quando a sua utilização é iniciada numa idade jovem ou por pessoas com história de esquizofrenia na família. Quem consome cannabis parece ter um risco 2.5 a 6 vezes superior de desenvolver esquizofrenia, sendo o risco maior quanto maior é o consumo desta substância.
Penso que conheço alguém que tem esta doença e não se está a tratar. Como posso ajudá-la?
Se a pessoa não reconhece que está doente, muitas vezes não é possível convencê-la a procurar ajuda. Se for um colega de escola uma forma de ajudar pode ser falar com o professor responsável pela turma. A escola poderá entrar em contacto com os serviços de saúde para sinalizar o problema. Por outro lado podes procurar falar com um familiar dessa pessoa, e explicar-lhe as tuas preocupações. Os familiares podem depois procurar ajuda junto dos serviços de saúde (centro de saúde, delegada de saúde, equipas comunitárias de psiquiatria etc.).
JAS 2007
8 respostas até agora ↓
CELMA // Março 11, 2009 às 4:02 pm |
A minha mãe tem esta doença, é triste vê-la assim.
celia A Mendonça // Abril 24, 2009 às 3:45 am |
descobri que meu filho tem a doença. estou muito preocupada, já está em tratamento, mas mesmo assim não me conformo.
Ajude-me por favor, eu ainda não falei para ele. O que faço?
Resposta: Cara Célia, quando um filho tem esquizofrenia é uma provação para qualquer pai. É natural que não se conforme com facilidade. No entanto, nos dias de hoje a medicação pode controlar grande parte dos sintomas (desde que feita adequadamente). A família pode ser ajudada também, quer frequentando sessões de psicoeducação (que alguns hospitais tem), quer assistindo o seu filho nas consultas com o psiquiatra e tirando todas as dúvida.
celia A Mendonça // Abril 28, 2009 às 3:13 am |
sim gostaria muito obrigado.
Janaína // Julho 24, 2009 às 7:34 pm |
Existe algum exame que possa fazer para ter a comprovaçao da esquizofrenia?
resposta: Não existe nenhum exame. Os exames (TC, analises) servem para excluir outras causas de psicose. Esquizofrenia é um diagnostico de exclusão, deve ser feito por um psiquiatra.
Ana // Agosto 3, 2009 às 7:14 pm |
olá!
Supeito que a mãe de um grande amigo meu sofra desta doença, assim como ele e o seu pai. Não tentam procurar ajuda, porque ela não admite estar muito diferente e com psicoses e porque não a querem magoar, nem “pertencer às organizações que estão a fazer tudo para a derrotar”. O que me magoa nisto tudo, é que assisti a uma situação de violência física dela para com o filho e ele não se defendeu, como aconteceu de todas as vezes anteriores. Senti-me muito mal, e magoa-me muito ver esta situação. Será que alguma coisa poderá ser feita? Não gostava que ninguém sofresse.
Resposta: Deverá falar com o seu amigo revelando esta preocupação, se se revelar inacessível, deverá falar com um familiar ou com o médico de família.
Sanges Nunes Monteiro // Setembro 8, 2009 às 6:42 pm |
Olá! Sou psicóloga clínica-psicanálise. O assunto abordado é de tamanho interesse, da minha parte porque estou atenta na formação das estruturas da infância e dos demais pacientes adolescentes e adultos que atendo. Abraços, aguardarei notícias.
raquel // Setembro 21, 2009 às 3:50 pm |
Tenho Disturbio da personalidade “borderline”, gostaria de saber se a minha doença pode evoluir para uma esquizofrenia?
Resposta: Não, são duas perturbações que não estão associadas
Maria Celeste Rosset // Outubro 14, 2009 às 9:14 pm |
Adorei as explicações do testo, e gostaria de saer mais a respeito de esquizofrenia em família, ou seja em uma familia existe várias pessoas que contem a mesma doença. A literatura a esse respeito é muito limitada. Se o Dr. puder indicar alguma literatura a esse respeito ficarei muito grata. Agradecida M. Celeste.
Resposta: consulte este site que tem informação fidedigna (em Inglês)