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A indisciplina é uma perturbação psicológica??

Fevereiro 27, 2009 · Deixe um Comentário

indisciplinaMuitas vezes ouvimos pais preocupados que nos perguntam se os comportamentos de indisciplina revelam algum tipo de perturbação psicológica e se deveriam procurar ajuda junto de um técnico de saúde mental especializado.

Importa primeiro que tudo dizer que indisciplina não é sinónimo de doença mental ou de agressividade, ainda que esta última possa eventualmente estar presente em alguns comportamentos “indisciplinados. Os comportamentos de indisciplina não são também algo de “anormal”!! A indisciplina faz parte da vida das nossas escolas e dos nossos alunos. É parte integrante de uma instituição com regras claras e definidas, mais ou menos importantes, onde a indisciplina pode ser não mais do que o quebrar destas regras.

Arriscaria dizer até que não existem adolescentes sem comportamentos (pontuais) de indisciplina e que idealmente todos devem, ocasionalmente, desafiar estes limites estabelecidos. Isto porque das tarefas da adolescência faz parte o questionar das regras, o desafiar dos limites e a tomada de decisões cada vez mais individualizadas, tarefas sem as quais a construção de uma identidade saudável e o desenvolvimento de um sistema de valores e atitudes coerente, não são possíveis. Um jovem que nunca questiona e contraria as regras é certamente alguém que experimenta, no seu desenvolvimento, dificuldades de autonomização.

No entanto, a indisciplina pode tornar-se muito frequente, com comportamentos progressivamente mais graves e com consequências mais relevantes para o bem-estar do próprio jovem e de outros, muitas vezes podendo atingir níveis de agressividade que não podem ser tolerados nem de modo nenhum aceites pela família ou pela escola.
Quando a indisciplina começa, de facto, a tornar-se uma dificuldade central na vida individual, escolar e familiar do jovem (avaliar frequência, intensidade, duração), importa perceber que muitos podem ser os factores a ela associados.
A indisciplina, como qualquer outro tipo de comportamento, surge num contexto em que o jovem responde de forma indisciplinada a um acontecimento, ou melhor, à sua interpretação do acontecimento. Por isso importa perceber junto dos jovens quais as suas crenças face à escola, professores e face a si mesma que podem ter contribuído para esta atitude de indisciplina (e eventualmente de agressividade).
Muitos jovens interpretam as situações escolares como sendo muito complexas para as suas capacidades, consideram que “não são capazes” de concluir determinada tarefa e, por isso, evitam fazê-la traduzindo-se isto, frequentemente, no desacato às ordens do professor para resolver determinado exercício. Estes jovens têm um auto-conceito muito negativo que prejudica a sua relação com os outros, com a escola e consigo mesmos.
Outros ainda, interpretam as situações de acordo com a sua crença de que “são inferiores aos outros” ou de que “todos lhes podem fazer mal” reagindo a situações sociais, nomeadamente, em sala de aula como se tivessem sido agredidos ou atacados pelos colegas ou pelo professor.
É importante perceber estas formas de atribuição de significado que os jovens utilizam no seu quotidiano, para percebermos melhor as razões de indisciplina e ajudar a desbloquear este tipo de comportamentos que prejudicam o sucesso escolar do aluno e a sua relação com os outros, através da substituição do auto-conceito negativo por crenças mais positivas acerca do próprio. Para tal, nem sempre será necessária uma intervenção técnica especializada, as próprias relações positivas estabelecidas pelo jovem podem ajudá-lo a criar um auto-conceito mais positivo.

Outras podem ser as razões da indisciplina e estas sim necessitar de maior atenção por parte de técnicos de saúde mental, bem como da família e de toda a comunidade escolar. Frequentemente estamos na presença de jovens que são considerados pelos professores como indisciplinados porque desacatam constantemente as regras. Contudo, quando avaliados, percebemos que estes jovens simplesmente não conseguem cumprir todas as regras propostas, ainda que tenham toda a intenção de o fazer. É o caso dos jovens com perturbação de hiperactividade com défice de atenção, que embora contribuam para a perturbação do funcionamento da aula, não estão a adoptar comportamentos de agressividade, nem sequer de desafio das regras impostas (ver secção sobre PHDA ). Estes jovens precisam de ser identificados e de serem alvo de ajuda especializada para não serem “rotulados” como indisciplinados e serem diferenciados daqueles alunos que são verdadeiramente indisciplinados e que necessitam de um trabalho e gestão comportamental na escola e na família que o ajude a aceitar as regras e agir de acordo com os limites impostos em diferentes contextos.

Muito haveria para acrescentar sobre a problemática da indisciplina e sobre o papel de todos nós, enquanto técnicos de saúde mental, da educação e familiares, no combate a este fenómeno complexo.
O que aqui fica é apenas uma reflexão… para podermos começar a pensar na indisciplina não como um fenómeno de “meninos” sem educação, mas como um fenómeno de natureza complexa associado não apenas às crenças e valores do jovem, às suas experiências relacionais, às expectativas de pais e professores nem tão pouco a perturbações psicológicas. Este é, por outro lado, um fenómeno que pode reunir e retratar dificuldades em vários destes níveis.

DC 2009

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