A percepção da adolescência pela sociedade é altamente mutável. Ser adolescente não é o mesmo em Portugal, no Japão ou no Uganda. Por outro lado as mudanças socio-culturais (especialmente aceleradas nos dias de hoje) levam à mudança do conceito de adolescência, ser adolescente em 2000 não é o mesmo que foi ser adolescente em 1990.
A nossa sociedade tem vindo a apresentar grandes mudanças, a nível tecnológico, no trabalho, na família e claro, nos valores.
Se há 50 anos a noção de ciclo de vida era mais clara, hoje não é assim. A sequência nascer, crescer, estudar (preparar para a vida adulta), iniciar a vida profissional, casar, ter filhos e assim perpetuar o ciclo, está actualmente, adulterada.
Assiste-se a um prolongamento da adolescência, por múltiplas razões, a preparação para a vida adulta é cada vez mais complexa e exigente, consome mais tempo, o estudo prolonga-se na maioria dos casos bem para lá dos 18 anos. A entrada para a vida profissional e a necessária autonomia financeira, são metas mais dificilmente atingidas, prolongado assim esta transição.
Por outro lado, os papeis menos definidos entre adultos e adolescentes dificultam a criação de uma identidade adulta. Nos dias de hoje os adultos querem ser adolescentes… Os pais não querem ser pais, mas sim amigos, irmãos mais velhos. Por todo o lado vemos campanhas de marketing reforçando esta ideia, a idade adulta é desvalorizada e especialmente os mais velhos, os avós os anciões, não têm papel nesta sociedade virada para os valores da recompensa imediata e do anti-crescimento.
Os pais passam a hesitar sobre suas normas, sobre os seus valores morais… têm dificuldade em impor a autoridade e estabelecer os limites nos seus filhos adolescentes. Muitas vezes porque se desejariam sentir de novo adolescentes, outras vezes por uma questão de culpa: “passo tão pouco tempo com ele… vou passar o tempo a chateá-lo?”.
Por outro lado, os pais de hoje tem uma tarefa impossível: a filtração da informação. Através da TV e da Internet, tudo chega aos olhos e cérebro do adolescente.
As famílias tem também vindo a mudar, cada vez menos se vem famílias nucleares ou alargadas, é habitual a separação dos pais, os padrastos, as madrastas, os avós ainda a trabalhar que não podem dar o seu apoio aos netos. Os pais e os cuidadores necessitam de trabalhar até longas horas, os filhos são deixados em ATL’s, em actividades ou mesmo sozinhos em casa.
A adolescência hoje representa um novo desafio para a sociedade. Como lidar com todas estas mudanças? É importante não esquecer que para o processo da adolescência e da autonomização, os adolescentes necessitam de modelos de identificação. O adolescente precisa de percorrer o seu caminho… mas não sozinho, para experimentar precisa de se sentir seguro, na família e também na escola. O adolescente precisa de descobrir a sua própria identidade e não cair numa identificação colectiva, que é trazida pelos meios de comunicação e de publicidade.
Só através de um maior apoio e valorização das famílias e das escolas é possível criar condições para que estes ajudem e estejam presentes nesta longa caminhada que é a adolescência.
DG 2008

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